Metade dos carros de passeio vendidos no Brasil deverá apresentar algum nível de eletrificação até 2032, de acordo com projeções da BloombergNEF. A estimativa aponta para uma significativa mudança na composição do mercado automotivo brasileiro, com a expansão tanto de veículos elétricos a bateria (BEVs) quanto de híbridos, mas também prevê um período de transição onde modelos exclusivamente a combustão continuarão a ter espaço. Essa transformação, que inicia nas concessionárias, avança mais lentamente pelas ruas, e levanta uma questão crucial para o agronegócio: qual será o papel do etanol nesse novo cenário de frota?

As projeções, apresentadas por Rafael Rabioglio, líder para a América Latina da BloombergNEF, durante a 9ª Conferência NovaCana, traçam um cenário de convivência tecnológica. A meta de 50% de eletrificação em 2032 engloba veículos elétricos a bateria, híbridos plug-in e híbridos convencionais. Isso significa que a maioria dos veículos vendidos ainda poderá utilizar combustível líquido, seja etanol ou gasolina. "A gente vê em 2032 metade das vendas dos veículos no Brasil serão eletrificados", afirmou Rabioglio. É importante ressaltar que essas estimativas fazem parte de um cenário de transição econômica da BloombergNEF, guiado por forças de mercado e não por políticas obrigatórias. O pico global de vendas de carros exclusivamente a combustão ocorreu em 2017, e a BloombergNEF já observa uma retração significativa desde então.

O Cenário Global e a Trajetória Brasileira

O movimento de eletrificação no Brasil se insere em uma tendência global de transição energética no setor automotivo. A comercialização de carros de passeio exclusivamente a combustão atingiu seu ponto mais alto em 2017 globalmente, e em 2025, o volume já se encontrava 35% abaixo desse pico. Essa retração, embora significativa, não significa o desaparecimento dos veículos que consomem gasolina ou etanol, uma vez que os híbridos, que podem utilizar esses combustíveis, são categorizados separadamente. A pandemia de Covid-19, embora tenha impactado a indústria, não alterou a tendência de substituição gradual de modelos convencionais por veículos com algum grau de eletrificação. Na América Latina, essa transição ganhou velocidade. Em seis mercados acompanhados pela BloombergNEF — Brasil, México, Colômbia, Uruguai, Chile e Argentina —, as vendas conjuntas de elétricos a bateria e híbridos plug-in somaram 299 mil unidades já no primeiro semestre de 2026, indicando um forte ritmo de aceleração que projeta ultrapassar com folga o total de 345 mil unidades vendidas em todo o ano de 2025. A participação dessas tecnologias nas vendas passou de 7% em 2025 para 11% no primeiro semestre de 2026, com o Brasil liderando o volume comercializado. É crucial notar que, neste recorte específico, os híbridos convencionais não estão incluídos.

Flex e Eletrificação: Uma Coexistência Possível

Para compreender as nuances dessa transição, é fundamental distinguir entre a capacidade de um veículo funcionar com diferentes combustíveis (como a tecnologia flex, que permite o uso de gasolina, etanol ou suas misturas) e o seu sistema de motorização (elétrico ou híbrido). Um veículo pode combinar a tecnologia híbrida com um motor flex, desde que projetado para tal. Veículos elétricos a bateria (BEVs) dependem exclusivamente de eletricidade para se mover e não possuem motor a combustão. Os híbridos convencionais combinam um motor a combustão com um motor elétrico, sem a necessidade de recarga externa. Já os híbridos plug-in (PHEVs) também integram ambos os sistemas, mas oferecem a vantagem de recarregar a bateria em uma tomada, permitindo percorrer distâncias significativas em modo puramente elétrico. Essa distinção é de suma importância para o futuro do etanol. A presença de um motor a combustão em veículos híbridos preserva a possibilidade de consumo de combustível líquido. No entanto, o volume efetivamente utilizado dependerá da tecnologia específica e do padrão de uso do veículo. Nos PHEVs, por exemplo, a frequência de recarga da bateria e a distância percorrida em modo elétrico influenciam diretamente a demanda por combustíveis líquidos.

O Impacto na Frota e no Etanol

A transformação nas vendas não se reflete imediatamente na frota circulante. Os veículos já em circulação possuem uma vida útil prolongada, o que garante a presença contínua de modelos a combustão mesmo com o aumento da oferta de eletrificados nas concessionárias. Rabioglio destacou que, "apesar das vendas serem altas, a gente sabe que a frota tem uma vida útil", explicando o efeito da renovação gradual dos veículos. Na projeção da BloombergNEF, até 2040, elétricos a bateria e híbridos plug-in representarão 24% da frota brasileira de carros de passeio. Os híbridos convencionais, que também utilizam combustíveis líquidos, aparecem em uma categoria separada, indicando que um mercado relevante para gasolina e etanol persistirá por muitos anos. A velocidade da renovação da frota será, portanto, um fator determinante na trajetória de consumo desses combustíveis. Para o setor sucroenergético, essa perspectiva exige um olhar além da quantidade de carros flex vendidos. O consumo futuro de etanol será influenciado pela eficiência dos novos veículos, pela participação dos híbridos e pela proporção de deslocamentos realizados em modo elétrico. Globalmente, a BloombergNEF projeta o pico da demanda por etanol no transporte rodoviário para 2031, com uma redução estimada pela metade até 2050. Para os produtores de etanol, o cenário é de adaptação, combinando a permanência de uma frota que ainda demanda combustíveis líquidos com a necessidade de explorar novos mercados e aplicações, como a aviação e o transporte marítimo, que, contudo, enfrentam desafios de custo e certificação.

Perguntas em Aberto para o Setor

As projeções da BloombergNEF pintam um quadro de transição gradual, onde a eletrificação avança nas vendas, mas a frota a combustão mantém sua relevância por muitos anos. A convivência entre diferentes tecnologias — elétricos a bateria, híbridos plug-in e híbridos convencionais — com a tecnologia flex levanta questões importantes sobre o futuro do etanol. A demanda futura dependerá não apenas do volume de vendas de veículos eletrificados, mas também da eficiência energética dos novos modelos, da proporção de uso em modo elétrico e da capacidade do setor de se adaptar a novos mercados. A aviação e o transporte marítimo são apontados como potenciais destinos para o etanol que perder espaço nas estradas, mas a viabilidade econômica e as políticas de incentivo nesses segmentos ainda são incertas. A eletrificação, portanto, muda gradualmente o papel do tanque de combustível e exige que o setor se prepare para um futuro com novas demandas e oportunidades.

A transição para veículos mais sustentáveis no Brasil é um processo multifacetado, com implicações tecnológicas, econômicas e ambientais. A convivência de diferentes tecnologias de propulsão nos próximos anos moldará o mercado automotivo e o setor de biocombustíveis, exigindo estratégias adaptativas e inovação contínua. A forma como o Brasil navegará essa transição definirá seu papel na mobilidade do futuro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times