A tese de investimento de Mike Schroepfer, ex-CTO da Meta e fundador da Gigascale Capital, marca uma mudança de paradigma no ecossistema de venture capital. Segundo entrevista ao Crunchbase News, o momento atual exige uma transição do foco exclusivo em bits para a reconstrução da infraestrutura física. Com a inteligência artificial tornando a criação de software progressivamente mais barata e acessível, o valor estratégico das empresas está migrando para os sistemas de energia, materiais avançados e cadeias de suprimentos que sustentam a operação digital.

Para Schroepfer, a escassez de energia para alimentar data centers e a expansão da manufatura industrial criam um gargalo que, ironicamente, funciona como um fosso competitivo para quem domina o hardware. Ao observar a convergência entre a demanda explosiva por computação e a necessidade de infraestruturas mais eficientes, a Gigascale Capital levantou US$ 250 milhões para apoiar startups que buscam modernizar a base física da economia, provando que é possível lucrar com hardware de alta complexidade.

O novo fosso competitivo na era da IA

A percepção histórica de que hardware é um negócio de alto dispêndio de capital e baixo retorno está sendo desafiada pela realidade da infraestrutura. Schroepfer argumenta que, enquanto o software se torna uma commodity, a capacidade de construir, mover e energizar a economia física torna-se o verdadeiro diferencial. O investidor aponta que, na última década, o Vale do Silício priorizou o capital intelectual voltado ao código, mas o sucesso de empresas como Nvidia, TSMC e SpaceX mudou a percepção do mercado sobre o valor de ativos físicos robustos.

A leitura aqui é que a infraestrutura não é apenas um custo operacional, mas um ativo estratégico. Empresas que controlam a geração de energia, a eficiência de chips de inferência ou a produção de materiais críticos possuem defesas naturais contra a concorrência. Esse movimento reflete uma necessidade estrutural dos Estados Unidos de retomar a soberania industrial, utilizando automação e robótica para competir em custos com bases fabris consolidadas, como a chinesa.

A falácia do software com alto capex

Schroepfer enfatiza que tratar empresas de hardware como meras extensões de software com maior necessidade de capital é um erro fundamental de gestão. Os modos de falha, os ciclos de teste e a própria lógica de iteração no mundo dos átomos são radicalmente diferentes do desenvolvimento ágil de aplicações. A estratégia da Gigascale foca em empresas que utilizam a manufatura em larga escala como ferramenta de redução de custos, aplicando a mesma lógica que tornou as baterias de íon-lítio 99% mais baratas nas últimas duas décadas.

A dinâmica em jogo é a substituição de componentes customizados e caros por tecnologias massificadas e modulares. Ao padronizar peças críticas — desde transformadores elétricos até sistemas de automação industrial —, as startups podem reduzir custos de forma previsível e contínua. Esse modelo de "generalização" permite que a mesma tecnologia seja aplicada em múltiplos setores, criando um efeito de escala que empresas de infraestrutura legada, presas a designs bespoke, não conseguem acompanhar.

Implicações para o ecossistema de energia

O setor energético é o epicentro dessa transformação. A demanda por energia, que permaneceu estagnada por décadas, agora cresce a taxas aceleradas devido aos data centers e à eletrificação de fábricas. Schroepfer destaca que tecnologias como baterias de longa duração e microreatores nucleares compactos não são apenas inovações sustentáveis; são soluções pragmáticas para o desequilíbrio entre oferta e demanda. Para reguladores e concessionárias, a transição para fontes mais limpas e descentralizadas tornou-se uma questão de viabilidade econômica.

No Brasil, essa tendência reverbera na necessidade de modernização das redes elétricas e na busca por eficiência em indústrias de base. A ideia de que a infraestrutura deve ser tratada como um componente de software — atualizável, escalável e massificável — oferece um caminho para que o país contorne gargalos logísticos e energéticos. O desafio, contudo, permanece na capacidade de atrair capital de risco para projetos que exigem paciência e tolerância ao risco físico.

O futuro da automação e robótica

O que permanece incerto é a velocidade com que essa infraestrutura de nova geração será adotada em larga escala. Embora a tecnologia exista, a burocracia de licenciamento e a resistência de setores tradicionais representam barreiras significativas. O mercado deve observar como as startups de hardware conseguirão escalar suas fábricas automatizadas sem sucumbir à complexidade operacional que costuma destruir margens em projetos de infraestrutura.

O otimismo de Schroepfer quanto ao futuro da manufatura nos EUA, impulsionado por ex-engenheiros de gigantes aeroespaciais, sugere um novo ciclo de inovação. Se a promessa de reindustrialização baseada em automação de baixo custo se concretizar, veremos uma mudança na balança comercial global. A questão fundamental para os próximos anos é se o capital de venture capital terá a resiliência necessária para sustentar empresas que operam na fronteira entre a física e a computação.

A transição para uma economia baseada em átomos, impulsionada por IA, apenas começou. A capacidade de construir infraestrutura de forma rápida, barata e eficiente definirá quais empresas dominarão a próxima década. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Crunchbase News