Emil Barr, um empreendedor de 23 anos sediado em Columbus, Ohio, adiou seus planos de se mudar para São Francisco, um movimento que ele vinha considerando há cerca de um ano. A decisão, segundo ele, foi motivada por preocupações com o ambiente regulatório e fiscal da Califórnia, incluindo uma proposta de imposto sobre grandes fortunas que, embora não o afete diretamente, sinaliza uma direção que ele teme poder prejudicar empreendedores. Barr, fundador da Flashpass, uma empresa que desenvolve tecnologia para conectar agências governamentais com pessoas em busca de trabalho, viu em São Francisco um polo de investidores e de inteligência artificial, áreas cruciais para o crescimento de sua startup.
No entanto, a análise mais aprofundada do cenário californiano o levou a cancelar a mudança. "Acho que foi menos uma questão de finanças imediatas", disse Barr à Fortune, referindo-se ao imposto proposto. Sua principal preocupação reside no que ele descreve como uma retórica política "anti-empreendedora" no estado. Essa hesitação de Barr coloca em evidência o dilema enfrentado pela Califórnia: a possibilidade de que a taxação de suas maiores fortunas possa financiar serviços essenciais, mas, ao mesmo tempo, tornar o estado um local menos atraente para a construção de negócios e o florescimento de talentos empreendedores.
O debate sobre a taxação de grandes fortunas
A proposta em questão, a Proposição 40, que estaria em votação em novembro, visa impor um imposto único de 5% sobre bilionários residentes na Califórnia em 1º de janeiro de 2026. Diferentemente de impostos sobre a renda anual, este incidiria sobre a riqueza acumulada, com a maior parte da receita destinada à área da saúde. A medida conta com o apoio de economistas renomados, como Joseph Stiglitz e Paul Krugman, que argumentam em carta que o imposto seria modesto em comparação com os ganhos de riqueza dos bilionários e ajudaria a suprir a perda de financiamento federal para a saúde, além de apoiar serviços públicos vitais para o crescimento econômico da Califórnia.
Por outro lado, a proposta enfrenta oposição de figuras influentes, como o governador Gavin Newsom e o cofundador do Google, Sergey Brin. A preocupação central dos opositores é que a taxação de grandes fortunas possa desencorajar o investimento e a permanência de empreendedores e capital no estado. A decisão de Barr, que decidiu permanecer em Ohio, é um reflexo dessa apreensão, sugerindo que o clima político e fiscal pode ter um impacto tangível nas decisões de localização de negócios, mesmo antes que os fundadores atinjam o patamar de bilionários sujeitos ao imposto.
Implicações para o ecossistema de startups
A decisão de Barr de não se mudar para a Califórnia, apesar de não ter ainda a magnitude de um bilionário, levanta questões sobre o impacto de longo prazo das políticas fiscais no ecossistema de startups. A Flashpass, que tem como missão auxiliar pessoas a encontrar trabalho, inclusive aquelas deslocadas pela automação, pode se beneficiar de um ambiente favorável a inovações. Contudo, a percepção de hostilidade política em relação a empreendedores pode levar a um êxodo não apenas da Califórnia, mas dos Estados Unidos como um todo, segundo Barr. "Se continuarmos a vilanizar os empreendedores, eles não vão apenas deixar a Califórnia; eles vão deixar a América", alertou.
Embora Barr mantenha laços com a Califórnia, incluindo funcionários e investidores, sua declaração de que "100% não construiria um negócio na Califórnia" ressoa como um alerta. A questão de como atualizar o código tributário de forma "nuançada e progressiva" permanece em aberto, sem que Barr ofereça soluções específicas. Essa postura, aliada à oposição de outras figuras do setor, destaca a divisão de opiniões sobre o tema.
A análise de especialistas sobre migração e impostos
Pesquisas sobre a migração de indivíduos de alta renda sugerem que o medo de um êxodo em massa devido a impostos mais altos pode ser exagerado. Cristobal Young, sociólogo da Cornell University, aponta que quanto maior a renda, menor a probabilidade de mudança, pois os indivíduos de sucesso tendem a valorizar suas redes profissionais, parceiros de negócios e laços familiares. Mudar para um novo ambiente profissional pode ser custoso e tornar a pessoa um "outsider".
No entanto, Young ressalva que a Califórnia representa um caso particular. A proposta de um imposto sobre riqueza acumulada é inédita nos EUA e difere de aumentos pontuais em impostos de renda anual. Estudos anteriores, como uma análise de 45 milhões de registros fiscais, indicaram um movimento limitado de milionários em resposta a aumentos tributários. Contudo, a natureza de um imposto sobre riqueza acumulada, e não sobre renda corrente, pode apresentar dinâmicas distintas, e a falta de precedentes torna a previsão de seus efeitos mais complexa.
O futuro da tributação de riqueza nos EUA
A expansão de impostos sobre altas rendas em diversos estados americanos pode diminuir o incentivo para a mudança, pois a evasão fiscal se torna menos direta. No entanto, a concentração de bilionários na Califórnia pode manter um forte incentivo para a migração, caso o imposto seja aprovado. Além disso, estudiosos como Brian Galle propõem formas de tributar ganhos de investimento à medida que se acumulam, em vez de apenas no momento da venda, para mitigar a evasão fiscal por meio de mudanças de residência.
A questão de fundo, como aponta Young, é a desigualdade no tratamento tributário entre salários e ganhos de investimento. Enquanto salários são tributados à medida que são ganhos, investidores podem adiar a tributação sobre o valor crescente de seus ativos. A busca por uma "solução permanente" para esse problema contínuo é um desafio que transcende a proposta californiana, indicando a necessidade de reformas mais amplas no sistema tributário americano. A decisão de Barr, embora de um indivíduo ainda não sujeito ao imposto, reflete uma ansiedade que pode moldar o futuro da atração e retenção de talentos e capital nos Estados Unidos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





