O discurso sobre transformação tecnológica frequentemente gira em torno de inteligência artificial, automação e análise de dados. No entanto, para muitas organizações de grande porte, o obstáculo real não reside na adoção dessas ferramentas, mas na intrincada teia de complexidade que acompanha o crescimento e a tomada de decisão. Cristina Hernández, fundadora e CEO da Mindata, uma companhia com atuação em mais de 25 países, defende que o foco deve ser deslocado da tecnologia em si para a capacidade de gerenciar a complexidade inerente aos negócios.

Mindata, fundada em 2018, nasceu com a premissa de ser a parceira ideal que a própria Hernández gostaria de ter tido em sua carreira. A filosofia central da empresa é clara: a tecnologia é um meio, não um fim. O objetivo principal é liberar tempo para os executivos, permitindo que se concentrem em atividades de maior valor estratégico. "Nosso trabalho consiste em absorver a complexidade para que as organizações possam tomar melhores decisões e dedicar sua energia a criar valor", explica Hernández. Essa abordagem, focada em simplificar em vez de adicionar camadas, foi crucial para o rápido crescimento internacional da Mindata, que se preparou para operar globalmente desde o primeiro dia, mantendo padrões de qualidade consistentes em todos os mercados.

A complexidade como inimiga da decisão

A visão de Hernández sobre a tecnologia como um facilitador, e não o cerne da transformação, é moldada por sua experiência prévia tanto no setor público quanto no privado. Essa dupla perspectiva revelou que o desafio tecnológico raramente é o ponto nevrálgico. No setor público, ela observou que a transformação organizacional é fundamentalmente uma questão de gestão de pessoas, redefinição de processos e manutenção de uma visão de longo prazo, onde o consenso e a coordenação são essenciais. Essa percepção se traduz diretamente na metodologia da Mindata: a conversa com o cliente não começa pela tecnologia, mas pelos objetivos de negócio. "A tecnologia muda constantemente; o que não muda é a necessidade de tomar boas decisões com rapidez", afirma Hernández, ressaltando o foco da empresa em resolver os problemas de tomada de decisão.

A oportunidade de mercado que Hernández identificou em 2018, em meio ao que muitos viam como um setor saturado, era justamente a gestão da complexidade. Grandes corporações já dispunham de departamentos de TI robustos, consultorias renomadas e fornecedores especializados, mas ainda sofriam com a energia desperdiçada na coordenação desses elementos. A Mindata se propôs a orquestrar essas partes interconectadas, tornando a gestão da complexidade uma experiência fluida para o cliente, sem exigir esforço adicional deste. A pandemia de Covid-19, que forçou muitas empresas a repensar seus modelos operacionais, acabou por validar a abordagem da Mindata. O trabalho remoto, que se tornou a norma, demonstrou que a colaboração global era não apenas possível, mas eficaz, algo para o qual a Mindata já estava estruturada, operando em múltiplos países e mantendo altos padrões de qualidade.

Turismo, banca e indústria: um modelo transversal

O setor de turismo tem sido um dos principais pilares de crescimento para a Mindata. Nesse segmento, a tecnologia deixou de ser um mero suporte para se tornar parte integrante da experiência do cliente. A tendência evoluiu da digitalização de processos para a antecipação de necessidades, a eliminação de fricções e a otimização de operações de forma quase imperceptível. A melhor tecnologia, segundo Hernández, é aquela que passa despercebida, funcionando nos bastidores para garantir uma experiência fluida. Esse princípio de tornar a complexidade manejável para que os clientes possam focar em seus negócios é o que a Mindata busca replicar em outros setores, como banca, seguros e indústria.

A aplicabilidade do modelo da Mindata em setores tão diversos se deve, segundo a CEO, à capacidade de resolver problemas, e não à tecnologia em si, que é transversal. Cada setor possui suas particularidades regulatórias, culturais e de prioridades. O papel da Mindata é integrar-se às equipes dos clientes para solucionar desafios que não são o foco principal de suas atividades, em vez de tentar dominar a expertise de cada negócio. A confiança construída com grandes grupos turísticos internacionais, que impulsionaram a internacionalização da Mindata por solicitarem sua presença em novos mercados, é um testemunho da eficácia dessa abordagem. A participação em associações como a DigitalES também reforça o compromisso de Hernández em contribuir para a discussão sobre o papel da tecnologia na competitividade nacional.

Liderança em um ambiente em transformação

Em um setor ainda predominantemente masculino, Cristina Hernández construiu autoridade e credibilidade através da coerência, do cumprimento de compromissos e da escuta ativa. Ela rejeita a ideia de liderança como uma questão de gênero, enfatizando que a autoridade se conquista pelo mérito e pela capacidade de inspirar equipes a darem o seu melhor. Esse estilo de liderança, focado no desenvolvimento dos outros, é o que ela considera essencial para as organizações atuais. Hernández observa uma mudança real, com mais mulheres assumindo posições de liderança em tecnologia, impulsionadas pela necessidade de perfis capazes de interpretar contextos diversos, tomar decisões com informações parciais e construir equipes resilientes. A capacidade de gerenciar a complexidade, portanto, não é apenas um desafio para as empresas, mas também uma característica definidora da liderança moderna.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España