A atratividade da Bolsa brasileira para investidores tem sido minada por um ambiente macroeconômico desafiador, com a situação fiscal e os gastos públicos no centro das preocupações. Eric Hatisuka, CIO da Mirabaud Family Office no Brasil, argumenta que o elevado patamar dos juros no país não pode ser analisado isoladamente, pois está intrinsecamente ligado à trajetória da dívida pública, às expectativas de inflação e à dinâmica dos gastos governamentais. Mesmo com melhorias aparentes no resultado primário, o custo da dívida pode continuar a pressionar o resultado nominal, dificultando a estabilização do endividamento.

Gastos públicos e juros: um ciclo vicioso

Hatisuka sustenta que o gasto público exerce uma pressão contínua sobre a demanda e as expectativas de inflação, o que, por sua vez, mantém os juros em níveis elevados. Nesse cenário, a política monetária, conduzida pelo Banco Central, torna-se menos eficaz quando o governo não adota medidas fiscais robustas para estabilizar a dívida. O executivo ressalta que o problema central do Brasil há muito tempo não é apenas o déficit, mas sim o volume do gasto público em si. O governo, segundo ele, é mais sensível a votos do que a juros, o que dificulta a coordenação entre as políticas monetária e fiscal. Essa falta de sintonia cria um ciclo de desequilíbrio: gastos públicos elevados geram pressão inflacionária, as expectativas inflacionárias elevam os juros, e o custo maior da dívida aumenta as despesas financeiras do governo, retroalimentando o problema.

Imprevisibilidade afeta planejamento e competitividade

O ambiente macroeconômico brasileiro não apenas afeta os investidores, mas também a capacidade de planejamento das empresas. A volatilidade dos juros em curtos períodos de tempo pode inviabilizar projetos de longo prazo, tornando arriscada a expansão da produção e a aquisição de novos equipamentos. A combinação de juros altos, carga tributária elevada e câmbio desalinhado impõe uma pressão simultânea sobre as companhias. Esse cenário desfavorável à expansão, inovação e competitividade internacional leva o empresário brasileiro a enfrentar dificuldades significativas. A imprevisibilidade da política econômica agrava a situação, dificultando a formação de expectativas e aumentando o risco de investimentos que demandam anos para gerar retorno. Embora a Mirabaud não descarte a renda variável, as condições estruturais do Brasil tornam o investimento em ações mais árduo em comparação com mercados desenvolvidos.

Brasil: uma economia de "commodities" e "velha"

Outro entrave estrutural apontado por Hatisuka é a composição do Ibovespa, que reflete a especialização histórica da economia brasileira em commodities e setores tradicionais, como petróleo, mineração e bancos. Essa "economia velha", embora relevante, dificulta o desenvolvimento de novas atividades econômicas, a atração de investimentos em tecnologia e a integração às cadeias globais de produção. A baixa previsibilidade macroeconômica e regulatória torna o Brasil menos competitivo na disputa por investimentos produtivos internacionais. Em vez de instalar unidades industriais voltadas à exportação, muitas empresas optam por atender apenas ao mercado doméstico, com alta dependência de importações e incentivos governamentais. A mudança de patamar do país, na visão do executivo, dependerá da atração de projetos capazes de gerar produção local e atender à demanda internacional.

Falta de "investment grade" e oportunidades perdidas

A ausência do grau de investimento (investment grade) é um obstáculo adicional para a entrada de capital estrangeiro de longo prazo. A perda dessa classificação em 2015 restringiu o acesso de parte dos fundos globais ao mercado brasileiro. Hatisuka argumenta que a questão vai além da classificação de risco; a falta de avanços fiscais e de previsibilidade econômica diminui o interesse estrutural dos investidores internacionais. O Brasil não conseguiu, por exemplo, capitalizar sobre a reorganização das cadeias de suprimentos após a pandemia, perdendo a oportunidade de se consolidar como um destino para novas fábricas voltadas à exportação. Sem reformas e maior previsibilidade, o país continuará dependendo de oportunidades pontuais, em vez de atrair capital comprometido com projetos de longo prazo.

O governo, ao manter juros elevados, empurra o país para a renda fixa. A remuneração desses ativos torna-se mais competitiva em relação ao risco de investir em ações, reduzindo o incentivo para assumir volatilidade. A Mirabaud, embora mantenha exposição a ações, encontra condições mais favoráveis nos EUA e na Europa, onde o ambiente institucional e econômico é mais previsível e impõe menos obstáculos. Essa diversificação geográfica permite reduzir a dependência de um único ambiente econômico e ampliar as possibilidades de retorno ajustado ao risco.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times