O clique de uma câmera muitas vezes captura mais do que a luz; ele registra o momento em que a realidade se torna insustentável. Para Misan Harriman, o fotógrafo nigeriano que se tornou o primeiro negro a assinar a fotografia de capa da Vogue britânica, o seu tempo à frente do Southbank Centre, em Londres, encerra-se sob o peso de uma tempestade midiática. Ele anunciou que não buscará um terceiro mandato, deixando a instituição no outono do hemisfério norte, em uma decisão que, segundo o próprio, já estava traçada antes da recente onda de escrutínio que transformou sua liderança em um campo de batalha ideológico.

O peso do ativismo na gestão cultural

A trajetória de Harriman no Southbank Centre, iniciada em 2021, sempre foi marcada por uma intersecção entre a curadoria artística e a militância social. O fotógrafo nunca escondeu suas posições sobre o movimento Black Lives Matter, direitos LGBTQ+ e a crise humanitária na Palestina. Contudo, foi a sua reação a um ataque em Golders Green, em abril deste ano, que desencadeou uma reação coordenada de tabloides britânicos. A acusação de antissemitismo, baseada em comentários sobre a cobertura da imprensa, escalou rapidamente, culminando em uma série de artigos que colocaram em xeque não apenas sua competência executiva, mas sua própria idoneidade moral.

A mecânica da polarização britânica

O caso Harriman ilustra uma dinâmica crescente no ecossistema da mídia britânica, onde a linha entre o jornalismo de investigação e o ativismo de direita tornou-se porosa. A mobilização de mais de 100 mil reclamações formais ao órgão regulador de imprensa, o IPSO, reflete um nível de engajamento público sem precedentes contra o que apoiadores de Harriman classificam como uma campanha de difamação. O uso de citações de Susan Sontag e a crítica à cobertura seletiva da violência foram lidos por seus detratores como provocações nazistas, uma interpretação que Harriman refuta veementemente, denunciando a tentativa de marginalizar vozes críticas à política externa de Israel.

O isolamento das instituições de arte

Para o setor de artes, a saída de Harriman levanta dilemas fundamentais sobre a neutralidade institucional. Em uma era de polarização, as organizações culturais encontram-se frequentemente prensadas entre a necessidade de representar a diversidade de vozes de seus líderes e a pressão financeira de stakeholders conservadores. A carta aberta assinada por nomes como Greta Thunberg e Brian Eno, em defesa de Harriman, sublinha a percepção de que a verdade está sendo disputada em um tribunal de opinião pública onde o volume do grito sobrepõe-se à precisão dos fatos, deixando as instituições como danos colaterais.

O futuro do discurso público

O que permanece, além da sucessão no Southbank Centre, é a incerteza sobre o espaço permitido para figuras públicas que ocupam cargos de liderança cultural. Se a militância se torna um impeditivo para a gestão, a arte corre o risco de se tornar um espaço asséptico, desprovido da vitalidade que o ativismo proporciona. O encerramento do mandato de Harriman não resolve o conflito; ele apenas o suspende, deixando em aberto a questão de quem, afinal, detém o direito de definir a narrativa em uma sociedade cada vez mais dividida por suas próprias certezas.

O Southbank Centre agora olha para o seu encontro anual em julho, enquanto o ecossistema cultural observa se a saída de um de seus nomes mais proeminentes sinaliza uma retração ou apenas uma mudança na forma como as batalhas culturais serão travadas daqui em diante.

Com reportagem de Brazil Valley

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