O aroma de café recém-moído paira no ar, misturando-se a notas sutis de incenso e a um toque de fragrância fina. Em uma rua discreta de Cleveland, Ohio, longe do burburinho de Nova York ou Los Angeles, William McNicol está erguendo um universo. Seu estúdio, aberto ao público em dias específicos, não é apenas um ponto de venda de roupas, mas um convite a uma imersão sensorial. Livros de arte convidam à folheação, discos de neo-soul preenchem o ambiente com melodias envolventes, e as próprias peças de vestuário, feitas em pequenos lotes com tingimentos orgânicos e tecidos de qualidade excepcional, contam histórias de um fazer artesanal que valoriza o processo acima da velocidade.

McNicol, com sua marca William Frederick, nomeada em homenagem ao avô, opera desde 2018 em uma cidade que muitos associariam à decadência industrial, não à vanguarda da moda. Sua proposta é deliberadamente contra-corrente. Em vez de se afogar na onda de "fibras naturais" que domina o discurso da moda sustentável, ele busca ir além, focando na criação de um sentimento, em uma experiência que transcende o material. A inspiração vem de colaborações locais com torrefações de café, de apotecários em Toronto e de perfumistas em Londres, tecendo uma rede de influências que reflete sua visão de mundo. Essa abordagem, que apela aos cinco sentidos, é o que ele mais valoriza, transformando a compra de uma peça de roupa em um ato de descoberta e conexão.

Um Mundo em Construção em Cleveland

Cleveland, para William McNicol, não é apenas um endereço, mas um catalisador. Longe da pressão e das expectativas de um grande centro urbano, a cidade permitiu que ele crescesse em seu próprio ritmo, desenvolvendo resiliência e um profundo senso de autoconhecimento. Inicialmente, ele confessa, houve uma ingenuidade em acreditar que o simples fato de produzir localmente em Cleveland geraria apoio automático. Essa visão, hoje, ele a reconhece como um equívoco, uma mentalidade de "entitlement" que não se sustentava pela força do produto ou da narrativa construída. A cidade, contudo, ofereceu um período de graça, um espaço para experimentação sem a urgência de provar seu valor imediatamente, permitindo que a marca se moldasse organicamente.

A história industrial de Cleveland, outrora um centro de manufatura de vestuário, é um pano de fundo que informa, mas não dita. McNicol prefere olhar para o futuro, para o potencial criativo que ainda reside na região, em vez de se apegar ao passado glorioso. Ele sente a responsabilidade de representar bem sua cidade, mas almeja que a marca fale por si, que sua qualidade e conceito sejam os primeiros a serem notados, e a origem, um bônus. Ser um "souvenir" de Cleveland não é o seu objetivo; a permanência e a força intrínseca do trabalho são. Essa distinção é crucial para ele, pois a sustentação de sua marca deve vir da excelência, não apenas da geografia.

A Arte de Fazer e Sentir

O estúdio de William Frederick é a personificação física dessa filosofia. Mais do que um ponto de venda, é um espaço de convivência e experimentação. McNicol observa a erosão dos "terceiros lugares" — espaços públicos neutros onde as pessoas podem socializar e se conectar — e busca oferecer uma alternativa. A ideia não é apenas vender roupas caras, mas criar um ambiente acolhedor onde os visitantes se sintam à vontade para explorar, interagir com os livros, experimentar as peças ou simplesmente desfrutar de um café. Ele rejeita a "linguagem de varejo atual", onde termos como comunidade e curadoria são esvaziados de significado e usados apenas como marketing. Para McNicol, essas são experiências que devem ser intrínsecas ao espaço, não meras promessas.

A colaboração com outros criativos, especialmente do setor de alimentos e bebidas, como a torrefação Duck Rabbit, a pizzaria Cent’s Pizza + Goods e o chef Vinnie Cimino, reforça essa visão de um ecossistema criativo interconectado. Essas parcerias, muitas vezes nascidas de amizades e interesses compartilhados, expandem o alcance da marca para além da moda, solidificando sua presença na cena cultural de Cleveland e além. A abertura para experimentar, para "descobrir como fazer", é um valor central, que se reflete tanto nas parcerias quanto na produção das peças, muitas delas tecidas em teares antigos por artesãos japoneses e com linho irlandês.

Desafiando o Padrão "Fibra Natural"

A ascensão do movimento "slow-made" e a ênfase em fibras naturais trouxeram uma nova onda de marcas que compartilham valores semelhantes. No entanto, McNicol sente-se desconfortável em ser categorizado unicamente como uma marca de "fibra natural". Para ele, o termo é vago e não captura a totalidade de sua proposta. Ele observa que a maioria das peças em seu portfólio, de fato, utiliza materiais naturais, mas a ênfase excessiva nessa característica corre o risco de generalizar e ofuscar a singularidade de cada criador. A comparação com outros designers, que ele considera redundante e sem personalidade, é um ponto de atrito.

McNicol busca ativamente se diferenciar, argumentando que a verdadeira inovação reside na linguagem de design única, na execução impecável e na experiência que a marca proporciona. A obsessão em ser copiado, ou em acusar outros de cópia, é vista por ele como um sinal de estagnação criativa. A ironia, ele percebe, é que muitos que se preocupam com a originalidade acabam por se tornar cópias de si mesmos. A proposta de William Frederick reside na sutileza, na qualidade tátil dos tecidos, na profundidade dos tingimentos e na atmosfera envolvente de seu estúdio, elementos que vão muito além da simples composição do fio.

O Futuro da Criatividade no Meio-Oeste

O que mais intriga na trajetória de William Frederick é a capacidade de um criador construir um mundo coeso e atraente a partir de um local inesperado. Cleveland, com sua história industrial e um cenário criativo em ressurgimento, oferece um terreno fértil para quem ousa pensar fora da caixa. A rede de artistas, chefs, músicos e artesãos que McNicol cultiva em torno de sua marca sugere um ecossistema vibrante, ainda pouco explorado pelo radar da moda convencional.

O movimento de McNicol levanta questões sobre a descentralização da criatividade e o futuro da produção de moda. Será que a excelência em design e a construção de marcas de impacto global podem, de fato, florescer longe dos centros tradicionais? A experiência de William Frederick em Cleveland sugere que sim, mas o sucesso dependerá da capacidade de ir além da origem geográfica e seduzir pelo mérito intrínseco de seus produtos e de sua visão de mundo. A pergunta que permanece é: quantas outras histórias de sucesso aguardam para serem contadas em cidades como Cleveland, longe dos holofotes, mas repletas de talento e paixão?

Source · Highsnobiety