A crescente dificuldade em alugar ou comprar um imóvel em diversas partes do mundo não é apenas uma crise de moradia, mas um sintoma de um problema mais profundo: a crise de democracia. A constatação surge com força quando pessoas comuns, como um morador de rua em Toronto, observam a construção de novos arranha-céus e se perguntam para quem eles são feitos, sabendo que não é para eles. Essa desconexão entre o sistema habitacional e as necessidades da população aponta para uma transferência excessiva de poder ao setor financeiro, a ponto de as nações perderem o controle sobre um direito humano básico.
Leilani Farha, ex-relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada e diretora global da organização The Shift, argumenta que a crise habitacional é global e reflete um sistema onde as decisões sobre o uso da terra e do capital imobiliário são ditadas por lógicas financeiras, e não pelas necessidades sociais. A construção de edifícios luxuosos em áreas onde a população local luta para se manter, como no exemplo de Toronto, ilustra uma economia que prioriza o lucro e o investimento financeiro em detrimento do acesso à moradia como direito fundamental. Essa dinâmica, segundo Farha, mina a capacidade dos governos de garantir o bem-estar de seus cidadãos e, consequentemente, a própria essência da democracia.
A análise de Farha, baseada em sua experiência e em seu novo livro, "Housing Inc.: A Global Takeover and Our Fight for Home", sugere que o setor financeiro adquiriu um poder desproporcional sobre o mercado imobiliário global. Isso se manifesta através de investimentos massivos em imóveis, muitas vezes transformados em meros ativos financeiros, e não em lares. Essa financeirização da moradia leva a um ciclo de especulação, aumento de preços e gentrificação, expulsando as populações de baixa e média renda de suas comunidades. A falta de regulamentação adequada permite que esse fenômeno se espalhe, tornando a moradia inacessível para a maioria e concentrando riqueza nas mãos de poucos.
As implicações dessa crise vão além do indivíduo. Quando o acesso à moradia, um direito humano essencial, é governado por forças de mercado desreguladas e pela lógica do capital financeiro, a soberania das nações e a capacidade dos governos de protegerem seus cidadãos são severamente comprometidas. A "tomada" do setor imobiliário por interesses financeiros globais, como descrito por Farha, sugere um cenário onde as políticas nacionais de habitação são subjugadas a interesses externos e especulativos. Isso levanta questões sobre a própria natureza da governança e a quem, de fato, os governos servem: aos seus cidadãos ou aos mercados financeiros globais.
A luta por um lar digno, portanto, torna-se uma luta pela democracia. A questão central é se as nações podem e querem retomar o controle sobre seu mercado imobiliário, garantindo que a moradia sirva às pessoas e não apenas como um veículo de acumulação financeira. O desafio reside em reformular as políticas habitacionais e financeiras para priorizar o direito à moradia, reequilibrando o poder entre o setor financeiro e as necessidades sociais, e fortalecendo a capacidade democrática dos Estados de agirem em prol de seus cidadãos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Guardian UK Business





