O cheiro de pinho e terra úmida pairava no ar da pequena Hazle Township, na Pensilvânia, um refúgio rural aninhado no sopé das montanhas Poconos. Era um lugar onde o tempo parecia correr mais devagar, onde as notícias chegavam por meio de cartas e conversas na mercearia local. Foi assim que, em junho, os moradores receberam uma comunicação que mudaria o ritmo pacato de suas vidas: uma carta da NorthPoint Development, anunciando planos para um gigantesco campus de data centers, o ‘Project Hazelnut’, que ocuparia 1.300 acres. Junto com a proposta de um investimento de US$ 165 milhões na região, havia um incentivo financeiro tentador: US$ 10.000 para cada família elegível que concordasse com a construção. O valor, a ser pago após a conclusão do primeiro edifício, foi reportado inicialmente pelo Wall Street Journal e, embora generoso, foi amplamente rejeitado pela comunidade. A discrição em torno do projeto, contudo, levantou suspeitas. Documentos sugeriam um envolvimento mais profundo, possivelmente com a gigante do comércio eletrônico Amazon, cujo nome estava estranhamente ausente de qualquer material promocional da NorthPoint ou do ‘Project Hazelnut’.

Enquanto oficiais locais e a NorthPoint se recusavam a confirmar a participação da Amazon, moradores persistentes começaram a usar o ‘right-to-know requests’ — pedidos de acesso à informação pública. Os registros, liberados em janeiro entre a Amazon e o Departamento de Desenvolvimento Comunitário e Econômico da Pensilvânia, revelaram o que muitos já suspeitavam. E-mails obtidos pela Fortune indicavam que a Amazon desejava manter seu envolvimento em sigilo, citando "questões contratuais" e a necessidade de discrição. Um porta-voz da Amazon confirmou à Fortune que a empresa estava "avaliando múltiplos locais na Commonwealth" e em discussões com a NorthPoint, mas que nenhum acordo definitivo havia sido fechado. A própria Amazon Web Services, através de seu CEO Matt Garman, anunciou recentemente um compromisso de não mais firmar acordos de confidencialidade com agências governamentais em projetos de data centers, uma resposta direta a críticas sobre a opacidade desses empreendimentos. Essa luta contra a falta de transparência em Hazle Township não é um incidente isolado. Em todo o país, a construção de data centers tem enfrentado crescente oposição, com cerca de 70% dos americanos expressando desaprovação à sua instalação em áreas locais, segundo pesquisas Gallup. A narrativa de opacidade e a sensação de que decisões cruciais são tomadas sem o conhecimento ou consentimento da comunidade são temas recorrentes.

A Sombra da Eminent Domain

Erika Cook, uma agente de seguros residente na vizinha Sugarloaf Township, personifica a resistência a esses projetos. Sua oposição ao ‘Project Hazelnut’ vai além da falta de informação; ela é uma das proprietárias cujos 28 imóveis estão sob a ameaça de ‘eminent domain’ — o poder do governo de desapropriar propriedade privada para uso público. Neste caso, o interesse público é justificado pela necessidade de uma linha de transmissão de alta tensão, proposta pela PPL Electric Utilities, que forneceria energia para o campus de data centers. A linha de 11,2 milhas atravessaria as casas dos moradores, levantando preocupações sobre desvalorização imobiliária, poluição sonora e a exposição a campos eletromagnéticos com potenciais riscos à saúde. Cook e outros vizinhos formaram a ‘Alliance to Stop the Line’ e apresentaram cerca de 20 protestos formais à Comissão de Serviços Públicos (PUC), contestando os planos da PPL. As audiências administrativas sobre a linha de transmissão foram temporariamente suspensas pela PUC, que considerou prematuro conceder extensões de serviços públicos enquanto o desenvolvimento do data center ainda estava sob judicial e contestação. A situação em Hazle Township reflete uma tendência nacional: um relatório da Data Center Watch apontou que, nos primeiros três meses de 2026, pelo menos 75 projetos de data centers, totalizando mais de US$ 130 bilhões, foram adiados ou cancelados. Grupos de oposição ativa em 49 estados saltaram de 396 para 833 entre o final do ano passado e março, indicando um aumento significativo na resistência a essa infraestrutura.

Raízes da Resistência e a Conexão com a IA

Hazle Township, em particular, tem um histórico de protestos comunitários. Duas décadas atrás, a cidade vizinha de Hazleton tornou-se o epicentro de um movimento anti-imigração sob o então prefeito Lou Barletta. Barletta capitalizou o declínio industrial e as mudanças demográficas para atrair eleitores da classe trabalhadora branca. Hoje, os moradores dessas cidades do nordeste da Pensilvânia veem sua campanha contra os data centers como parte de uma resistência nacional maior contra a expansão da infraestrutura de inteligência artificial (IA). A estatística de que quase 70% dos americanos se opõem à construção de um data center em sua área, citada por pesquisas da Gallup e NBC News, ressoa com a experiência local. George Packer, do The Atlantic, descreveu essa resistência como "profundamente americana", com origens locais e queixas que se acumulam. Annie Vinatieri, outra moradora de Sugarloaf, descreve os protestos atuais como um movimento apartidário, impulsionado por americanos com pouca experiência em ambientalismo, majoritariamente da classe trabalhadora e média/alta, brancos, com uma minoria de dominicano-americanos também demonstrando interesse. Para muitos, a luta é pessoal. Como Cook disse, "Muitos de nós somos, na verdade, mini Erin Brockoviches, conseguindo avançar". As pequenas vitórias, como a suspensão temporária das audiências da PUC, são celebradas como passos importantes em uma batalha maior.

O Papel do Governo e as Implicações Futuras

O governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, inicialmente anunciou o ‘Project Hazelnut’ como um teste para uma ordem executiva que agilizava o licenciamento de infraestrutura de IA. Meses depois, anunciou um investimento de US$ 20 bilhões da Amazon em IA na Pensilvânia, o maior investimento de capital na história do estado. Contudo, as declarações iniciais de Shapiro sobre "campus de inovação e tecnologia" soaram vagas para os moradores, que só começaram a se preocupar quando a realidade do que isso significava se tornou clara. A expansão da infraestrutura de IA, esperada para movimentar US$ 7 trilhões até 2030, levanta questões ambientais. Centenas de acres de terra já foram desmatados para esses projetos, com relatos de deslocamento de vida selvagem. Moradores como Cook expressaram preocupação com a proximidade de canteiros de obras a locais Superfund — áreas contaminadas que exigem limpeza a longo prazo — e o risco de danos às barreiras de contenção tóxica. A postura de Shapiro mudou. Em agosto, ele assinou uma ordem executiva eliminando o licenciamento acelerado e devolvendo a responsabilidade para departamentos ambientais locais, citando preocupações semelhantes às dos moradores. Ele observou que muitos desenvolvedores "especulavam" sem acesso garantido a energia ou contratos firmes com empresas de tecnologia, causando "estragos nas comunidades" no processo. A batalha legal contra a ‘eminent domain’ e a aprovação do ‘Project Hazelnut’ continua. A NorthPoint ainda busca aprovações, e a possibilidade de a empresa se mudar para outros locais na Pensilvânia, como um desenvolvimento de 1.400 acres em Banks Township, é uma preocupação real para os opositores.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Infraestrutura de IA

A resistência em Hazle Township e em outras comunidades rurais levanta questões cruciais sobre o futuro da expansão da infraestrutura de IA. Embora a Amazon tenha se comprometido a maior transparência em acordos governamentais, a dinâmica entre grandes corporações, desenvolvedores locais e comunidades afetadas ainda é complexa. A possibilidade de a NorthPoint encontrar outro local para seu projeto, ou de outros empreendimentos semelhantes surgirem em outras partes do estado ou do país, permanece uma preocupação constante. O que acontecerá quando os interesses de desenvolvimento massivo colidirem diretamente com os direitos e o bem-estar de comunidades locais? A pressão por mais energia e infraestrutura para suportar a IA continuará a gerar atritos, e a capacidade desses grupos de oposição de obter vitórias sustentáveis, em vez de apenas adiamentos temporários, determinará o rumo dessa expansão. A luta pela terra e pela informação na Pensilvânia é um microcosmo de um debate global sobre como equilibrar o progresso tecnológico com a sustentabilidade ambiental e a justiça social.

O futuro da infraestrutura de IA na Pensilvânia e além pode depender não apenas de decisões corporativas e governamentais, mas também da resiliência e da capacidade de mobilização de comunidades que buscam proteger seus lares e seu ambiente. As pequenas vitórias de Erika Cook e seus vizinhos, embora ainda incertas em seu desfecho final, oferecem um vislumbre da força da resistência popular diante de interesses econômicos poderosos e da crescente demanda por poder computacional.

Source · Fortune