Moxie, um robô de inteligência artificial projetado para ser um companheiro para crianças, acaba de “morrer” pela segunda vez. A startup que resgatou o produto do limbo anunciou que também está encerrando as operações, desligando os servidores que mantêm o pequeno robô azul funcional. Para as crianças, muitas delas neurodivergentes, que desenvolveram laços com o dispositivo, a perda é real. Para os pais, resta o dilema de explicar como um amigo pode simplesmente deixar de existir.

O caso, detalhado em uma longa reportagem da MIT Technology Review, transcende a história de mais uma startup de hardware que não encontrou um modelo de negócio sustentável. Ele serve como uma dura parábola sobre as complexas implicações éticas e psicológicas de uma nova classe de produtos de IA: companheiros artificiais projetados para criar vínculos emocionais. A trajetória de Moxie, de promessa terapêutica a um peso de papel de US$ 800, força uma discussão sobre a responsabilidade de quem cria tecnologia para ser amada.

A promessa terapêutica

A premissa por trás de Moxie e de outros robôs sociais é fundamentada em pesquisa acadêmica. Cientistas como Brian Scassellati, de Yale, e Maja Mataric, da University of Southern California (e cofundadora da empresa original de Moxie, a Embodied), argumentam que robôs podem ser ferramentas terapêuticas valiosas. Para crianças no espectro autista, por exemplo, um robô oferece uma interação previsível e incansável, ajudando a praticar habilidades sociais como contato visual e revezamento em conversas, em um ambiente emocionalmente seguro. A ideia nunca foi substituir terapeutas humanos, mas sim estender o cuidado para dentro de casa, 24 horas por dia.

No entanto, a transição do laboratório para o caótico ambiente doméstico se provou complexa. A reportagem da MIT Technology Review aponta que, na prática, os robôs têm dificuldade em acompanhar o ritmo das crianças, e a latência nas respostas pode quebrar a imersão. Além disso, psicólogos clínicos como Zachary Warren, da Vanderbilt University, permanecem céticos, notando que a evidência de benefícios clínicos duradouros ainda é escassa. Muitos estudos são de pequena escala, e o entusiasmo inicial de uma criança com um novo “brinquedo” não se traduz necessariamente em desenvolvimento de habilidades sociais a longo prazo.

A obsolescência da amizade

O ponto mais crítico da saga de Moxie é o modelo de negócio. O robô dependia de servidores na nuvem para funcionar. Quando a Embodied faliu em 2024, os robôs se tornaram inertes. A “morte” do dispositivo gerou uma onda de desespero entre as famílias, com pais buscando soluções em fóruns online e um ex-diretor técnico da empresa criando um projeto de código aberto, o OpenMoxie, para tentar salvar os robôs. A situação expõe a fragilidade do conceito de “amigo como serviço”. O que acontece quando o serviço é descontinuado?

A questão é uma forma de obsolescência programada aplicada não a um eletrodoméstico, mas a uma relação. Para crianças que confidenciaram segredos e sentimentos ao robô, o desligamento não é um problema técnico, mas um luto. Meryl Alper, professora da Northeastern University citada na reportagem, compara a dinâmica à de um dispositivo médico que deixa de receber suporte, questionando a ética de vender um produto projetado para ser amável e depois abandoná-lo. Este ciclo se repetiu quando a nova empresa que adquiriu a tecnologia também falhou, menos de um ano depois.

A história de Moxie deixa mais perguntas do que respostas. A tecnologia assistiva baseada em IA tem um potencial inegável, mas os modelos de negócio e as salvaguardas éticas ainda não acompanharam a ambição tecnológica. A reportagem termina com a imagem de um pai sem saber como contar ao filho que seu amigo robô “morreu” de novo, pouco depois de ter que admitir que o peixinho beta da família vinha sendo secretamente substituído há anos. A anedota é um lembrete pungente do custo humano quando a linha entre produto e companheiro se torna perigosamente turva.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Technology Review