A luz que atravessava a lente de Muriel Hasbun raramente buscava a nitidez documental. Em vez disso, ela preferia o campo da sugestão, onde o vidro de um porta-retratos reflete um vestido floral e obscurece, propositalmente, a imagem de uma mãe e seus filhos. Essa sensibilidade, que marcou a trajetória da artista salvadorenha falecida em 13 de maio, aos 64 anos, em Maryland, não era um exercício de estilo, mas uma necessidade existencial. Hasbun não apenas fotografava; ela cavava o solo da memória para entender como o exílio e a guerra civil moldam a identidade de quem foi forçado a partir.
Nascida em 1961, filha de um dentista de ascendência palestina e de uma mãe de raízes polonesas e francesas, Muriel cresceu em um ambiente onde o deslocamento já era parte da herança familiar. Quando a guerra civil em El Salvador eclodiu em 1979, ela seguiu o caminho de tantos outros, estabelecendo-se em Washington, D.C. A partir desse momento, sua prática artística tornou-se um ato de resistência contra o esquecimento, utilizando a fotografia, o vídeo e a instalação para mapear o que ela chamava de terruño — um conceito que funde a terra física com a ideia de pertencimento e pátria.
A arqueologia do trauma familiar
O trabalho de Hasbun atingiu uma maturidade profunda quando ela começou a confrontar os arquivos deixados por sua família. Em séries como “Santos y sombras”, a artista sobrepôs fotografias de família a novas imagens, criando uma colagem temporal onde o passado e o presente coexistem em uma mesma superfície. Essa técnica de sobreposição funcionava como uma metáfora para a própria experiência da diáspora, onde o indivíduo nunca está totalmente no lugar onde reside, nem totalmente no lugar de onde partiu.
Um dos momentos mais pungentes de sua trajetória ocorreu após a morte de seu pai em 2004. Ao vasculhar seus pertences, ela encontrou um arquivo de radiografias odontológicas, uma ferramenta que, durante a guerra, serviu como o único meio de identificação para corpos desaparecidos. A série “X post facto (équis anónimo)” transformou esses registros clínicos em abstrações formais. Os dentes, projetados em grandes dimensões, ganharam a aparência de projéteis enterrados em uma paisagem árida, simbolizando como a violência política se infiltra na estrutura física e psíquica de uma nação muito tempo depois de o conflito cessar.
O arquivo como ferramenta de resistência
Além de sua prática como artista, Hasbun compreendeu que a preservação da memória coletiva exigia instituições. Quando sua mãe, Janine Janowski, faleceu em 2012, Muriel assumiu a responsabilidade de gerir o legado da Galería el Laberinto, um espaço experimental que foi fundamental na cena artística salvadorenha durante décadas de isolamento cultural. Ao relançar o projeto como Laberinto Projects, ela criou uma plataforma que não apenas preserva obras, mas fomenta o diálogo entre artistas, educadores e a diáspora centro-americana.
Essa visão de que a arte é um serviço público, e não apenas um objeto de contemplação, guiou sua carreira acadêmica. Como professora e mentora, Hasbun lutou pela inclusão de artistas centro-americanos nos cânones da história da arte nos Estados Unidos. Ela argumentava que, ao omitir essas vozes, as instituições americanas falhavam em contar uma história precisa e inclusiva do próprio país, onde a população salvadorenha ocupa um lugar de destaque demográfico e cultural.
O papel da invisibilidade na arte
As implicações do trabalho de Hasbun vão muito além da estética. Em um mundo marcado por crises migratórias constantes, sua obra oferece uma lente para entender a vulnerabilidade da identidade. Ao explorar o “irreconciliável” — os paradoxos da condição humana que não possuem resposta simples —, ela desafiou seus espectadores a aceitar a fragmentação como parte da verdade. Para os reguladores e curadores, o legado de Hasbun serve como um lembrete de que a representação de minorias não deve ser apenas uma cota, mas uma revisão profunda das narrativas históricas que sustentam a cultura ocidental.
Para o ecossistema brasileiro, que também lida com as complexidades da diáspora e a necessidade de preservar arquivos de resistência, o modelo de atuação de Hasbun é uma referência. Ela demonstrou que é possível ser, simultaneamente, uma artista de vanguarda e uma guardiã de arquivos, provando que a arte pode ser um motor de inclusão social e de cura política. A colaboração com historiadores e o uso de documentos, como em seu projeto sobre o “Artists Call Against US Intervention”, mostram que a arte contemporânea pode ser um campo de ativismo transnacional.
Onde a memória repousa
O que permanece após a partida de uma artista que dedicou a vida a traduzir o invisível? Muriel Hasbun deixou um corpo de trabalho que se recusa a ser categorizado, insistindo em manter a sua natureza elusiva. O desafio que ela impõe aos seus sucessores é o de continuar essa tradução, encontrando novas linguagens para narrar as histórias que ainda não foram contadas.
Observar o futuro de projetos como o Laberinto Projects será essencial para entender como o legado de Hasbun sobreviverá sem a sua presença física. A pergunta que resta, pairando sobre o seu terruño, é se seremos capazes de manter a mesma sensibilidade ao lidar com as memórias daqueles que, hoje, ainda buscam um lugar para chamar de lar. A obra de Muriel Hasbun não oferece respostas definitivas, mas nos convida a caminhar por entre as sombras com a mesma coragem que ela demonstrou ao encarar a luz.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





