A maioria dos museus globais opera sob uma lógica de acumulação que resulta em um paradoxo visual: cerca de 95% de suas coleções permanecem permanentemente escondidas em depósitos. Em uma tentativa de reverter esse distanciamento, instituições de peso têm adotado o chamado "open storage" ou armazenamento aberto. Projetos como o Depot, do Museum Boijmans Van Beuningen em Roterdã, e o V&A East Storehouse, em Londres, transformaram áreas de reserva técnica em espaços de visitação, prometendo uma experiência interativa que borra as fronteiras entre o bastidor e a galeria de exibição.

Contudo, essa tendência, analisada na nova antologia "Keeping Culture: The Architecture of Storage", publicada pela Valiz e editada por Susan Holden e Ashley Paine, enfrenta ceticismo. A obra questiona se a exibição do armazenamento não seria apenas uma nova forma de performance institucional, mascarando a natureza fundamental da reserva como um espaço de guarda e não de exposição. O debate coloca em xeque a ideia de que a transparência arquitetônica equivale automaticamente à democratização do acesso cultural.

A arquitetura da transparência

A ascensão do armazenamento visível reflete uma mudança na relação entre o público e o museu. Ao projetar edifícios onde caixotes e estantes fazem parte da experiência estética, instituições como o V&A buscam desmistificar o processo de conservação. A leitura editorial aqui é que essa abertura tenta remover a "autoridade" da curadoria, permitindo que o visitante encontre os objetos sem a mediação direta de uma narrativa imposta. É uma tentativa de oferecer uma experiência mais autêntica, livre do que Walter Benjamin descreveu como o tédio ordenado das coleções tradicionais.

Entretanto, a neutralidade desse encontro é frequentemente ilusória. Ao expor o depósito, o museu ainda exerce controle, declarando tanto a vastidão de suas posses quanto sua pretensa generosidade. A antologia sugere que o armazenamento, por definição, requer contexto; sem ele, o objeto torna-se uma mercadoria visual, perdendo a conexão histórica que a pesquisa curatorial deveria fornecer. O risco é que a transparência se torne um fim em si mesma, ignorando a complexidade do que está sendo guardado.

Performance e o peso do passado

O debate sobre o armazenamento aberto ganha contornos éticos urgentes quando confrontado com a origem das coleções. Muitos itens mantidos em reserva foram adquiridos em contextos de violência colonial, tornando a exibição desses objetos uma questão sensível. A arquiteta Carroll Go-Sam, em sua contribuição para o livro, destaca a complexidade de criar espaços de descanso para restos ancestrais indígenas, apontando que a arquitetura, por si só, não é capaz de reconciliar danos históricos passados ou a falta de procedência clara.

Críticos como Deyan Sudjic, ex-diretor do Design Museum, descrevem as novas instalações de armazenamento como "altamente performativas". A preocupação é que o museu utilize a estética do depósito para validar sua própria existência e volume de acervo, desviando a atenção da necessidade de repatriação ou de uma curadoria mais crítica. O "open storage" corre o risco de ser uma fachada para manter o status quo da acumulação, em vez de enfrentar as tensões inerentes à posse de objetos de culturas alheias.

O custo da preservação digital

O paradoxo da preservação atinge seu ápice quando a própria existência de uma cultura é ameaçada. A antologia aponta o caso de Tuvalu, nação insular que busca se tornar a primeira "nação digital" enquanto enfrenta o aumento do nível do mar. A tentativa de arquivar uma cultura inteira em servidores remotos, que dependem de energia intensiva e, ironicamente, contribuem para as mudanças climáticas que ameaçam o país, ilustra o custo oculto do armazenamento. É o custo da sobrevivência cultural medido em bits e eletricidade.

Essa dinâmica nos força a considerar o que perdemos ao tentar salvar tudo. Se a arca de Noé foi o arquétipo da coleção, o dilúvio é o lembrete constante da finitude. A questão central não é apenas como exibir o que temos, mas por que insistimos em acumular tanto em um mundo onde a preservação, seja física ou digital, exige recursos cada vez mais escassos e impactantes.

Perspectivas e incertezas

O futuro dos museus parece dividido entre a necessidade de transparência e a responsabilidade ética sobre o que, de fato, deve ser mantido sob tutela. O modelo de "open storage" continuará a ser testado, mas sua viabilidade como solução duradoura permanece em aberto. Observar como as instituições equilibram a espetacularização de seus depósitos com a necessidade de curadoria profunda será fundamental para entender se estamos caminhando para uma democratização real ou apenas para uma nova forma de ostentação.

A reflexão final que a obra propõe é sobre o custo da retenção. Cada objeto mantido em reserva é uma escolha, e cada escolha implica uma omissão. O desafio para os museus do século XXI não é apenas abrir as portas de seus depósitos, mas justificar a existência de tudo o que está dentro deles e o que, eventualmente, o dilúvio levará embora. Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews