Uma fotografia captada da Estação Espacial Internacional (ISS) direcionou o olhar da NASA para o sul de Madagascar, revelando um notável círculo de rocha clara. A imagem, tirada em agosto de 2026, destaca uma estrutura geológica de brilho intenso sobre o terreno árido, evocando semelhanças visuais com certas regiões da Lua. A formação identificada é o maciço de anortosita de Saririaky, com uma área superficial de aproximadamente 100 quilômetros quadrados.

O que a NASA viu no espaço

A anortosita é uma rocha ígnea intrusiva, formada pelo resfriamento lento de magma sob a superfície terrestre, o que permite o desenvolvimento de grandes cristais minerais. Cientistas estimam que o maciço de Saririaky tenha se originado no final do período Precâmbrico, há pelo menos 600 milhões de anos, um período anterior à configuração geográfica atual de Madagascar. O Observatório da Terra da NASA descreveu a formação como uma "maravilha", uma estrutura magmática de dimensões colossais que oferece uma janela para o passado geológico da Terra.

Paralelos entre Terra e Lua

A comparação visual entre o maciço de Saririaky e a Lua não é mera coincidência. A anortosita é um componente abundante na superfície lunar, sendo a rocha predominante nas chamadas terras altas lunares, as áreas claras e altamente refletivas. Na Terra, afloramentos de anortosita são encontrados em regiões como o leste do Canadá, Escandinavéia e sul da Índia. Esses equivalentes terrestres são cruciais para o estudo de materiais que desempenharam um papel fundamental nos estágios iniciais da história lunar, especialmente considerando a limitação de amostras lunares coletadas pelas missões Apollo. A anortosita de Saririaky, assim como as de Montana, nos EUA, oferece uma perspectiva valiosa para a pesquisa sobre a composição e formação da Lua.

Uma história de Gondwana

As rochas circundantes a Saririaky fornecem pistas sobre um período intenso na evolução geológica da região. Pesquisadores identificaram que o maciço está inserido em uma zona de cisalhamento dúctil, onde altas pressões e temperaturas metamorfizaram e deformaram as rochas. Essa deformação resultou em padrões lineares orientados de norte a sul, indicativos das imensas forças atuantes durante a convergência de blocos continentais. Geólogos associam essa deformação às colisões que formaram o supercontinente Gondwana, reunindo territórios que hoje compõem a África, Índia, Madagascar, Austrália e Antártida. Uma hipótese sugere que outro maciço de anortosita, localizado a cerca de 60 km ao norte, pode ter se separado de Saririaky durante esse processo, um fenômeno conhecido como "boudinage", causado pelo estiramento e fragmentação de materiais sob forte tensão.

Janelas para o passado profundo

Enquanto as anortositas lunares datam de mais de 4 bilhões de anos, formadas a partir do antigo oceano de magma lunar, seus equivalentes terrestres como Saririaky são essenciais para complementar o estudo. A rocha em Madagascar conecta a história profunda da Terra com a de seu satélite, permitindo aos cientistas investigar a formação das crostas planetárias em ambos os corpos celestes. A análise dessas formações não apenas ilumina o passado geológico de Madagascar e a formação de Gondwana, mas também oferece paralelos diretos com os processos que moldaram a Lua em seus primórdios, fornecendo dados vitais onde amostras diretas são escassas.

O estudo contínuo de formações como o maciço de Saririaky promete aprofundar nossa compreensão sobre a dinâmica tectônica da Terra primitiva e as condições que levaram à formação da Lua. A combinação de observações espaciais com análises geológicas terrestres continua a desvendar os segredos do nosso planeta e do sistema solar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech