O National Trust for Historic Preservation, organização sem fins lucrativos sediada em Washington, D.C., divulgou sua lista anual dos "11 Locais Históricos Mais Ameaçados" dos Estados Unidos. A seleção deste ano, que coincide com a preparação para o 250º aniversário da fundação do país, busca proteger locais que narram a história da igualdade e dos direitos civis. Cada local listado receberá uma subvenção pontual de 25 mil dólares para auxiliar na preservação e na disseminação de suas histórias.

A lista ganha contornos políticos ao incluir locais que foram objeto de disputas diretas com a administração Trump. Entre eles estão o Stonewall National Monument, em Nova York, e o President’s House Site, na Filadélfia. Segundo reportagem da ARTnews, a inclusão desses espaços reflete um embate sobre a interpretação da história nacional, envolvendo desde a remoção de placas informativas sobre escravidão até a substituição de símbolos de movimentos sociais em monumentos federais.

Tensões sobre a memória nacional

O debate em torno do President’s House Site ilustra a complexidade dessa disputa. Em janeiro, o National Parks Service (NPS) removeu placas que detalhavam a vida de nove pessoas escravizadas que trabalharam para George Washington. O Departamento do Interior justificou a medida alegando o alinhamento com uma ordem executiva de março de 2025, que visava combater o que o governo classificou como "ideologia corrosiva". A cidade da Filadélfia contestou a decisão judicialmente, argumentando que alterações no local exigiriam consenso entre as partes.

Um juiz federal determinou, em fevereiro, a restauração temporária das sinalizações, argumentando que a omissão das realidades da escravidão na era da fundação resultaria em um relato falso da história americana. Esse episódio ressalta como a preservação histórica tornou-se um campo de batalha ideológico, onde a manutenção de narrativas específicas é utilizada para definir os valores fundamentais do país em um momento de polarização intensa.

Mecanismos de controle e resistência

O caso do Stonewall National Monument, berço do movimento pelos direitos LGBTQIA+, seguiu uma lógica semelhante de intervenção governamental. Em fevereiro, o NPS removeu a bandeira do Orgulho que tremulava no local, substituindo-a pela bandeira dos Estados Unidos sob a justificativa de um memorando contra o uso de símbolos de "não agência" em monumentos nacionais. A reação foi imediata, com autoridades locais protestando e grupos sem fins lucrativos acionando a justiça.

A disputa jurídica argumentou que a remoção violava precedentes federais estabelecidos para outros locais históricos. Um acordo alcançado em abril permitiu que a bandeira do Orgulho retornasse permanentemente ao local. Este mecanismo de resistência, pautado pelo uso de litígios e pressão política, demonstra como a sociedade civil e governos locais buscam contornar diretrizes federais que tentam restringir a representatividade em espaços de memória pública.

Impacto em comunidades marginalizadas

Além dos locais sob disputa política direta, a lista inclui espaços fundamentais para a história de grupos marginalizados, como mulheres, afro-americanos, nipo-americanos e povos indígenas. O Women’s Rights National Historical Park, em Nova York, enfrenta um déficit de manutenção de 10 milhões de dólares, enquanto o Tule Lake Segregation Center, na Califórnia, luta para proteger a integridade de seu território, onde milhares de nipo-americanos foram detidos durante a Segunda Guerra Mundial.

A preservação desses locais é essencial para a compreensão da totalidade da experiência americana. O Greater Chaco Cultural Landscape, que abrange quatro estados, exemplifica o risco de pressões de desenvolvimento econômico, como a exploração de petróleo e gás, em áreas de ancestralidade Pueblo e Hopi. A falta de proteções federais robustas para esses locais coloca em risco não apenas a estrutura física, mas a própria continuidade da memória cultural desses grupos.

Perspectivas e incertezas

O futuro desses locais permanece incerto, dependendo tanto de financiamento contínuo quanto da estabilidade das proteções legais. A ameaça de "apagamento intencional", mencionada pela CEO do National Trust, Carol Quillen, sugere que a preservação histórica continuará sendo um tema sensível. A necessidade de equilibrar o desenvolvimento urbano com a conservação exige uma articulação complexa entre entes privados, governos e comunidades locais.

O que se observa é um cenário onde a preservação de um monumento não é apenas uma questão de manutenção predial, mas um ato de afirmação histórica. A forma como o país escolher proteger — ou negligenciar — esses locais nos próximos anos será um indicador de como a sociedade lida com suas próprias contradições e aspirações de igualdade. A trajetória desses 11 pontos de interesse servirá como um termômetro para a política cultural americana.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews