A Natura&Co registrou um prejuízo de R$ 444,5 milhões no primeiro trimestre, um resultado que reflete o cenário macroeconômico desafiador e os custos inerentes ao processo de reestruturação do grupo. A companhia, que tem buscado simplificar sua operação e focar na América Latina, enfrentou um crescimento abaixo do esperado para a marca Natura no Brasil, pressionada pelo aumento do endividamento das famílias brasileiras e pela consequente retração no volume de compras.

Segundo reportagem da Bloomberg Línea, a administração da companhia defendeu os números como um reflexo de um período de transição, onde a prioridade tem sido a conclusão de uma reorganização administrativa complexa. A tese central da empresa agora é que, em um mercado que não apresenta crescimento orgânico robusto, a sobrevivência e a rentabilidade dependem estritamente da capacidade de capturar participação de mercado dos concorrentes diretos.

O fim da ambição global e a nova realidade operacional

O resultado trimestral foi significativamente impactado por despesas não recorrentes, que a CFO Sílvia Vilas Boas pontuou como responsáveis por uma distorção na margem operacional. Enquanto a rentabilidade registrada foi de 7,3%, o indicador teria atingido 12% caso fossem excluídos os efeitos da reestruturação. A leitura aqui é que o mercado financeiro deve observar os próximos trimestres como um teste de resiliência, uma vez que a maior parte das rescisões e custos de integração entre Natura e Avon já foi contabilizada.

A estratégia de abandonar a ambição global para concentrar esforços na América Latina não é apenas um movimento defensivo, mas uma tentativa de ganhar escala e eficiência. A fusão das estruturas administrativas de Natura e Avon na região é o pilar desta nova fase. Vale notar que, com 75% da reorganização concluída, a expectativa da diretoria é que a curva de custos não recorrentes apresente uma queda expressiva, permitindo que o fluxo de caixa seja direcionado para alavancas de crescimento.

A busca por competitividade regional

Diante de um mercado estagnado, a Natura definiu o Nordeste como uma prioridade estratégica. A região, que apresentou vulnerabilidade no trimestre com a queda na produtividade da rede de consultoras, exige agora uma adaptação do sortimento de produtos ao perfil específico do consumidor local. O movimento sugere que a companhia reconheceu a necessidade de uma abordagem mais granular, abandonando estratégias de prateleira únicas para todo o território nacional.

Um exemplo prático dessa adaptação é a aposta em categorias de entrada, como o body splash. Esse tipo de produto atua como uma resposta direta ao poder de consumo limitado, permitindo que a empresa mantenha o engajamento com o consumidor de perfumaria sem exigir um ticket médio elevado. A dinâmica em jogo é a manutenção da base de clientes em um ambiente de restrição orçamentária, garantindo que o share não seja perdido para concorrentes de menor custo.

Implicações para o ecossistema de varejo

As tensões enfrentadas pela Natura ressoam em todo o setor de varejo de beleza no Brasil. A necessidade de controlar despesas enquanto se mantém o investimento em marketing e inovação é um dilema que afeta desde grandes corporações até players nativos digitais. A capacidade da empresa de executar essa transição operacional sem perder a força de sua rede de consultoras será o principal indicador de sucesso nos próximos meses.

Para o mercado, a pergunta que permanece é se o novo modelo operacional será suficiente para compensar a falta de impulso do mercado de consumo. A concorrência, que também busca eficiência, não deve dar trégua, o que força a Natura a ser cada vez mais cirúrgica na alocação de capital. A integração das marcas Natura e Avon, sob a nova estrutura, é, portanto, o fator decisivo para a sustentabilidade da margem no longo prazo.

Perspectivas e incertezas

O que permanece em aberto é a velocidade com que a rede de consultoras reagirá às novas diretrizes de sortimento e ao modelo de vendas ajustado. A dependência desse canal de distribuição torna a recuperação da produtividade um fator crítico que foge, em parte, ao controle direto da administração central.

O mercado aguarda a divulgação dos dados do segundo trimestre para confirmar se os benefícios da reestruturação se traduzirão, de fato, em expansão de margem. A disciplina na gestão de despesas será o norte da companhia ao longo do ano, mas o desafio de retomar o crescimento do volume de vendas em um cenário de juros e endividamento persistentes continua sendo uma variável de difícil previsão.

Com reportagem de Bloomberg Línea

Source · Bloomberg Línea