O setor de defesa europeu enfrenta um chamado à colaboração sem precedentes. Ricardo Domínguez García-Baquero, presidente da Navantia, defende que as empresas do ramo, apesar de serem concorrentes em licitações internacionais, precisam demonstrar maturidade para unir esforços em prol de uma Europa tecnologicamente soberana e mais forte. A declaração foi feita durante o Fórum CREO, promovido pelo periódico espanhol ‘Cinco Días’.

Domínguez ressaltou que a Navantia já tem dado passos concretos nessa direção, firmando acordos de cooperação com empresas como a alemã TKMS, especializada em submarinos. A ideia central é que, ao somar conhecimentos e tecnologias dentro da União Europeia, o bloco pode diminuir sua expressiva dependência tecnológica, especialmente dos Estados Unidos. Essa interdependência, segundo o executivo, limita a autonomia estratégica do continente.

A Necessidade de União em Defesa

A indústria de defesa europeia, embora possua capacidades robustas, tem historicamente operado em um modelo de competição acirrada entre nações e empresas. A visão de Domínguez sugere uma mudança de paradigma: a colaboração estratégica como ferramenta para alcançar a autossuficiência tecnológica. Em um cenário global de crescente instabilidade e aumento dos gastos militares, a União Europeia busca ativamente fortalecer sua base industrial de defesa para garantir sua autonomia e capacidade de resposta.

A dependência de tecnologias estrangeiras, particularmente dos Estados Unidos, tem sido um ponto de preocupação para Bruxelas. A colaboração entre empresas como Navantia e TKMS exemplifica um caminho para mitigar essa vulnerabilidade, concentrando recursos e expertise para desenvolver soluções de ponta que atendam às necessidades de segurança europeias. Essa cooperação não visa eliminar a concorrência, mas sim canalizá-la de forma construtiva para objetivos comuns.

Programas de Modernização e o Ecossistema Industrial

Além da necessidade de colaboração, o presidente da Navantia comentou sobre o andamento dos Programas Especiais de Modernização (PEM). Ele afirmou que os programas estão progredindo bem, apesar da complexidade inerente ao gerenciamento de fundos públicos, que exige rigor e atenção aos detalhes. A maioria desses programas já foi iniciada, indicando um avanço concreto na atualização das capacidades de defesa.

Domínguez também destacou o aumento exponencial do investimento em defesa como um desafio e uma oportunidade. Esse movimento não impacta apenas as grandes empresas, mas todo o ecossistema industrial que as circunda. A Navantia, ao se posicionar como uma empresa "tratora" ou "dinamizadora", assume a responsabilidade de impulsionar esse ecossistema, gerando um efeito multiplicador em termos de inovação, emprego e desenvolvimento tecnológico.

Implicações para a Europa e o Setor

A proposta da Navantia de colaboração entre concorrentes pode ter implicações significativas para o futuro da indústria de defesa europeia. Ao priorizar a soberania tecnológica, a Europa pode se tornar menos suscetível a pressões externas e mais capaz de definir suas próprias prioridades de segurança. Isso também pode levar à criação de padrões tecnológicos comuns e a uma maior interoperabilidade entre as forças armadas dos estados membros.

Contudo, a concretização dessa visão exigirá um esforço coordenado e a superação de barreiras culturais e competitivas. A participação ativa de governos, agências de defesa e do setor privado será crucial para transformar essa aspiração em realidade. A redução da dependência tecnológica, em particular, é um objetivo estratégico de longo prazo que demandará investimentos contínuos e uma visão compartilhada.

Perguntas em Aberto para o Futuro

Resta saber como essa colaboração será estruturada na prática e quais modelos de governança serão adotados para gerenciar os interesses divergentes das empresas envolvidas. A capacidade de equilibrar a concorrência inerente ao mercado com a necessidade de cooperação estratégica será um fator determinante para o sucesso. Além disso, a forma como a União Europeia irá apoiar e incentivar essas iniciativas, possivelmente através de fundos e regulamentações específicas, ainda é um ponto a ser observado.

O aumento dos investimentos em defesa abre uma janela de oportunidade para repensar a arquitetura da indústria europeia. A questão central é se as empresas e os governos conseguirão capitalizar esse momento para construir uma base tecnológica sólida e autônoma, ou se as dinâmicas competitivas tradicionais prevalecerão. O caminho para a soberania tecnológica europeia é complexo e repleto de desafios.

A defesa europeia busca um novo caminho, onde a colaboração entre rivais pode ser a chave para a autossuficiência tecnológica. O desafio agora é transformar essa visão em ações concretas que fortaleçam o continente frente às incertezas globais. A Navantia, com sua proposta, lança um debate crucial para o futuro da segurança e da indústria na Europa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España