A empresa chinesa Navee, sediada em Suzhou, apresentou o WaveFly 5X, um veículo de efeito solo (WIG) projetado para uso recreativo. Testado no lago Dong Taihu, o aparelho adapta uma tecnologia concebida originalmente para fins militares durante a Guerra Fria, permitindo deslocamento a poucos metros da superfície da água com alta eficiência energética. De acordo com reportagem do El Confidencial, o projeto busca traduzir um conceito de engenharia complexo em um produto de lazer para o consumidor.

O funcionamento do WaveFly 5X baseia-se no chamado efeito solo: quando uma asa voa muito próxima a uma superfície, forma-se uma “almofada” de ar comprimido que reduz a resistência aerodinâmica e melhora a sustentação. Essa característica, que no passado conferiu estabilidade e velocidade a embarcações experimentais soviéticas, hoje reaparece como alternativa aos meios de transporte aquáticos convencionais em trechos curtos e de baixa altitude.

O legado do “Monstro do Mar Cáspio”

O conceito de ekranoplano foi popularizado pelo engenheiro soviético Rostislav Alekseev, que buscava superar limites de velocidade dos hidrofoils tradicionais. Enquanto embarcações com aletas submarinas esbarram na cavitação — fenômeno que, em geral, limita a velocidade prática a cerca de 100 km/h —, o efeito solo se mostrou uma solução para operar acima desse patamar. O programa soviético resultou em protótipos gigantescos, como o “Monstro do Mar Cáspio”, com cerca de 92 metros de comprimento e peso na ordem de 540 toneladas.

O desenvolvimento desses veículos foi marcado por sigilo e desafios técnicos, perdendo tração com o colapso da União Soviética e mudanças de prioridades políticas. Por décadas, a tecnologia ficou restrita a experimentos militares e nichos de transporte marítimo, até que o interesse recente por novas formas de mobilidade reacendeu a exploração do design de efeito solo para aplicações civis.

Mecanismos e performance do WaveFly 5X

Segundo a reportagem do El Confidencial, o WaveFly 5X utiliza estrutura em fibra de carbono de grau aeroespacial e um arranjo de asas em tândem para otimizar a sustentação próxima à água. O veículo é descrito como capaz de atingir cerca de 85 km/h, com capacidade para dois ocupantes, carga útil de aproximadamente 140 kg e autonomia estimada em 80 km, operando preferencialmente em lagos, rios tranquilos e costas abrigadas.

A viabilidade comercial, porém, tem desafios imediatos. Ainda de acordo com a cobertura, o nível de ruído — comparável ao de motores potentes ou grandes drones — desperta preocupações ambientais em ecossistemas aquáticos. Além disso, não há preço oficial anunciado nem clareza regulatória sobre certificações e categorias de operação, o que deve atrasar a adoção em escala. Estimativas não oficiais na imprensa especializada mencionam um valor na casa de US$ 100 mil, mas esse número não foi confirmado pela fabricante.

Implicações para a mobilidade global

O ressurgimento da tecnologia WIG já extrapola o uso recreativo. Em Singapura, há planos divulgados publicamente para operações comerciais com o AirFish 8; nos Estados Unidos, a startup Regent anunciou uma planta dedicada ao Viceroy Seaglider, concebido para 12 passageiros e operação 100% elétrica próxima à lâmina d’água. Esses movimentos indicam uma crescente exploração da baixa altitude sobre a água como corredor de mobilidade. Projeções de mercado sobre esse segmento ainda variam amplamente e são, por ora, especulativas.

Para o ecossistema brasileiro, com extensa costa e bacias hidrográficas, a chegada de veículos de efeito solo coloca questões regulatórias entre a fronteira marítima e a aérea. Integrar essas aeronaves/embarcações em ambientes de tráfego intenso exigirá marcos que considerem segurança operacional, ruído e impacto ambiental — um debate que reguladores internacionais começam a acompanhar com mais atenção.

Perspectivas e incertezas

O futuro do WaveFly 5X dependerá da capacidade da Navee de provar segurança, reduzir ruído e apresentar um roteiro (roadmap) claro de certificação e comercialização. Sem preço oficial e com custos estimados elevados, o público-alvo inicial tende a ser o de alto padrão e entusiastas.

Observar a evolução da tecnologia WIG nos próximos anos será crucial para entender se o conceito se tornará alternativa real de transporte regional sobre a água ou se permanecerá restrito a nichos. A transição do ekranoplano — de arma secreta da Guerra Fria a possível brinquedo de luxo — evidencia como a inovação frequentemente migra do militar para o civil, mas só se consolida quando engenharia, regulação e aceitação social andam juntas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech