Os principais neobancos com escala global alcançaram a marca de 234,8 milhões de clientes no último ano, um crescimento de 19,7% em relação ao período anterior, segundo dados da consultoria Alvarez & Marsal. O volume de negócio agregado dessas instituições, que engloba a soma de créditos e depósitos, avançou 47,9%, totalizando 201,2 bilhões de dólares.

O levantamento, que monitora players como Nubank, Revolut, Wise, Monzo e Starling Bank, sinaliza uma mudança de paradigma no setor. A fase de expansão desenfreada para aquisição de usuários começa a ceder espaço para uma estratégia focada em monetização, eficiência operacional e a ampliação do portfólio de produtos financeiros para cada cliente existente.

A consolidação do modelo de negócio

O crescimento dos neobancos não é mais uniforme. Enquanto o Revolut lidera a expansão da base com um avanço de 30,1% em 2025, atingindo 68,3 milhões de usuários, o Nubank, por sua escala superior, apresenta um ritmo mais moderado de 14,7%, totalizando 131 milhões de clientes. A dinâmica indica que, à medida que a base cresce, a dificuldade de manter taxas de aquisição elevadas aumenta, forçando as empresas a buscarem maior profundidade no relacionamento com o correntista.

O avanço no volume de negócios gerido pelas plataformas, no entanto, é expressivo e supera, em termos percentuais, o crescimento da base de usuários. O Revolut, por exemplo, elevou seu volume de negócios em 72,5%, seguido pelo Monzo, com 58,7%, e pelo Nubank, com 49,9%. Esses números refletem a capacidade das fintechs em aumentar o engajamento e a utilização dos serviços oferecidos, transformando contas de entrada em centros financeiros mais completos.

O abismo entre o digital e o tradicional

A comparação com a banca tradicional europeia expõe o tamanho do desafio e, simultaneamente, o potencial de mercado ainda inexplorado. Segundo a análise da Alvarez & Marsal, os neobancos apresentam um volume médio de negócio por cliente de 857 dólares, enquanto nos bancos incumbentes europeus esse valor atinge 104.585 dólares. Essa disparidade de 122 vezes não é interpretada apenas como uma fraqueza, mas como uma oportunidade estratégica.

A leitura é que, ao aprofundar a oferta de produtos — como crédito estruturado, investimentos complexos e seguros —, os neobancos podem capturar uma fatia maior do patrimônio e da necessidade financeira de seus usuários. A transição de um banco de transação simples para um banco de relacionamento é o próximo passo para a sustentabilidade financeira dessas empresas a longo prazo.

Tensões competitivas e regulatórias

Para os stakeholders, o cenário impõe pressões distintas. Reguladores observam com atenção a resiliência operacional dessas instituições conforme elas se tornam sistemicamente mais relevantes. Concorrentes tradicionais, por outro lado, aceleram suas transformações digitais para tentar estancar a perda de clientes de menor ticket, enquanto os neobancos tentam subir a escada de valor para competir pelos clientes mais rentáveis das instituições estabelecidas.

A expansão global também coloca essas fintechs sob diferentes regimes de supervisão, exigindo um equilíbrio delicado entre a agilidade tecnológica que as define e o cumprimento das normas de capital e liquidez impostas aos bancos de varejo tradicionais. A eficiência operacional, portanto, deixa de ser um diferencial de marketing e torna-se um requisito de sobrevivência.

Perspectivas para o mercado financeiro

O que permanece incerto é a velocidade com que a lacuna de receita por cliente será reduzida. O sucesso dependerá da capacidade dessas plataformas em manter a experiência do usuário, que foi o motor de sua ascensão, enquanto introduzem produtos financeiros mais complexos e, consequentemente, mais burocráticos.

A observação dos próximos trimestres deve focar nos indicadores de rentabilidade por usuário e na diversificação das fontes de receita. A consolidação do setor parece inevitável, e a capacidade de escala será testada não mais pelo número de novos cadastros, mas pela solidez dos balanços e pela retenção de clientes em um mercado cada vez mais saturado.

O mercado financeiro atravessa uma fase de transição onde o tamanho da base de clientes perde importância relativa para a qualidade e a profundidade da relação financeira. A trajetória dos grandes neobancos sugere que a próxima década será definida por quem conseguir transformar a conveniência digital em rentabilidade sustentável.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España