Quando um atleta de elite vê sua camisa ser aposentada, Nicole Pullen Ross frequentemente está presente. Diferente de familiares ou torcedores, a sócia do Goldman Sachs ocupa a posição de conselheira financeira, garantindo que a fortuna acumulada durante a carreira não se evapore antes da cerimônia. Liderando a divisão de Sports and Entertainment Solutions (SES) do banco, Pullen Ross atua em uma intersecção rara entre o sucesso esportivo e a complexidade da gestão de ativos, um papel consolidado ao longo de quase três décadas na instituição.

O cenário atual, marcado pelo encerramento de drafts nas ligas americanas e a entrada de novos jovens milionários no mercado, torna o trabalho de Pullen Ross mais urgente. Segundo dados citados pela executiva, atletas perderam quase US$ 974 milhões em fraudes na última década. O dado, oriundo de um estudo da EY, revela uma aceleração preocupante: cerca de 40% dessas perdas ocorreram apenas nos últimos seis anos, evidenciando a vulnerabilidade crescente desses clientes a ameaças cibernéticas e falhas de segurança física.

O desafio da profissionalização no vestiário

O Goldman Sachs formalizou a unidade SES em 2018 ao identificar uma lacuna crítica: a falta de infraestrutura financeira para jovens talentos. Enquanto um CEO de 50 anos possui uma equipe estruturada, um atleta de 21 anos que assina um contrato de US$ 50 milhões raramente dispõe do mesmo suporte. A estratégia de Pullen Ross consiste em replicar o modelo corporativo dentro do vestiário, educando os clientes sobre gestão de riscos e projeções de longo prazo.

A barreira, contudo, é frequentemente humana. Pullen Ross destaca a dificuldade de penetrar nos círculos íntimos dos atletas, onde amigos ou conhecidos sem qualificação técnica ocupam posições de confiança. O trabalho, segundo a executiva, exige paciência para demonstrar valor e substituir a intuição por decisões financeiras baseadas em dados, transformando a relação de confiança em um ativo de proteção patrimonial.

A economia dos direitos de mídia e o novo perfil de riqueza

O crescimento do braço de esportes do Goldman Sachs foi impulsionado pelo boom dos direitos de mídia, que sustenta a economia das grandes ligas. A valorização das propriedades esportivas permitiu que a riqueza chegasse aos atletas de forma mais ágil, inclusive por meio de receitas de NIL (nome, imagem e semelhança). Diferente de executivos tradicionais, o atleta lida com uma janela de ganhos extremamente comprimida, o que exige uma disciplina financeira superior desde o primeiro dia de contrato.

Além das ligas estabelecidas como NFL e NBA, Pullen Ross observa que novas modalidades oferecem oportunidades distintas. O investimento em esportes emergentes, incluindo o crescente interesse pelo esporte feminino, reflete uma mudança demográfica. A excelência atlética, independentemente do gênero, está atraindo capital de investidores que buscam ativos com maior potencial de crescimento no longo prazo.

O futuro do investimento e a ascensão do esporte feminino

Uma das áreas de maior entusiasmo para a executiva é a participação de mulheres no ecossistema de propriedade de times. Em eventos do banco, a demanda por investimentos em franquias femininas — como o New York Liberty ou o futebol feminino — é crescente. O fenômeno é visto por Pullen Ross como um reflexo da exposição e da qualidade técnica que agora alcançam um público mais amplo, quebrando barreiras de gênero.

O que permanece como desafio é a sustentabilidade dessa riqueza para além das quadras. A transição para uma vida após o esporte continua sendo o teste definitivo para qualquer estratégia de gestão. Observar como as novas gerações, agora mais expostas ao capital e à gestão profissional, equilibrarão o legado financeiro será o principal indicador da eficácia desse modelo de consultoria.

O sucesso de Pullen Ross não reside apenas na gestão de contratos, mas na capacidade de traduzir a complexidade de Wall Street para uma realidade onde a carreira é curta e os riscos são globais. Resta saber se a profissionalização do entorno dos atletas será capaz de acompanhar a escala da riqueza que o esporte continua a gerar.

Com reportagem de Fortune

Source · Fortune