Nina Schuyler, autora premiada de ficção climática, cresceu em meio a corpos d'água no estado de Washington. Passou a maior parte dos verões de sua infância no Lago Gravelly, moldado por geleiras, um espelho profundo e azul que ela descreve como um segundo lar. Navegou, nadou e mergulhou em suas águas, cercadas por pinheiros Douglas e casas escondidas. Em uma pequena embarcação, velejava até uma boia, amarravase e lia por horas no meio do lago. Sua família também frequentava o Estreito de Puget, onde ela e suas irmãs exploravam a costa, brincavam com pequenos caranguejos e construíam abrigos de pedras para eles. Encontravam ostras, levavam ao pai, que as abria com uma faca, adicionava suco de limão e as comiam. Com um barco a remo chamado Rosie, aventuravam-se em busca de tubarões. No Rio Deschutes, no Oregon, as irmãs pedalavam às margens do rio, faziam piqueniques e aprendiam a pescar com mosca com o pai. Essas experiências moldaram uma compreensão visceral do mundo natural, que transparece em seu novo romance, "Open the Floodgates". O livro se inicia com um personagem central, o Rio, comparecendo a um tribunal para determinar seus direitos futuros.
A correnteza da inspiração literária
Na conversa anterior sobre "In This Ravishing World", obra que lhe rendeu o PEN Oakland Josephine Miles Literary Award, o W.S. Porter Prize for Short Story Collections, o Prism Prize for Climate Literature e foi finalista do Northern California Book Award, Schuyler mencionou estar trabalhando em "algo experimental envolvendo a natureza". Sua abordagem, descrita como um convite para "deixá-lo se desenrolar, sem julgar ou reprimir", priorizou o ritmo, o som e o movimento sobre as regras narrativas tradicionais. "Paguei atenção ao ritmo e som e movimento e à forma como o texto se sentia em vez de regras", explica. Essa liberdade permitiu uma "visão oceânica", alternando entre perspectivas próximas e panorâmicas, e a capacidade de transitar entre personagens, mesmo no meio de uma cena. Foi um processo "emocionante e assustador", pois a autora não tinha certeza se funcionaria, mas a decisão de "deixar a coisa toda explodir" prevaleceu, impulsionada pela pergunta: "o que você tem a perder?"
A personificação legal e a voz do rio
A inspiração para "Open the Floodgates" surgiu durante a faculdade de direito, onde a lei da água era sua matéria favorita. Seu professor, apaixonado pelo tema, despertou nela um interesse duradouro. Ao longo dos anos, Schuyler acompanhou a tendência legal de conceder "personalidade" a entidades naturais: rios, montanhas, florestas, tartarugas marinhas e vales. A ideia de mover o que é tradicionalmente considerado propriedade para a categoria de pessoa, com direitos e responsabilidades, a fascinou. "Conflar a palavra 'rio' com 'pessoa' foi um choque inesperado, que fez meu cérebro acelerar com um monte de 'e se?'", relata. Essa reflexão a levou a pesquisar o movimento "Direitos da Natureza" e a inspirou a colocar o Rio e os humanos no mesmo patamar, em vez de ter o rio como mero pano de fundo. Na prática, rios com personalidade jurídica recebem guardiões humanos para representá-los em tribunal, mas Schuyler imaginou o próprio rio agindo em sua defesa, desconfiado dos humanos.
O fluxo narrativo e a memória ancestral
Para dar vida ao Rio como personagem, Schuyler explorou suas qualidades definidoras e detalhes idiossincráticos. Um rio vivo está em constante movimento, fluindo em direção a um corpo d'água maior. A autora imaginou a dificuldade do Rio em permanecer imóvel em uma cadeira de tribunal, um espaço retangular que não faz sentido para sua natureza fluida. As metáforas do Rio invocam imagens da natureza, e na terceira versão do manuscrito, Schuyler decidiu que o texto que o representava não seria um bloco reto, mas sim sinuoso, movendo-se para a esquerda e para a direita na página, para que o leitor sentisse o balanço e o fluxo. O tempo, para o Rio, tem uma textura diferente; na história, ele tem três milhões de anos. Schuyler o concebeu como um receptáculo de memória, ciente de todos na cidade, de seus ancestrais, das árvores de choupo que antes margeavam suas margens, dos peixes que nadavam em seu leito e dos pássaros que bebiam de suas águas. Ele se lembra de Hazel, agora com setenta e cinco anos, em todas as fases de sua vida, desde a infância até a juventude.
A influência de Virginia Woolf e a complexidade humana
A escrita de Virginia Woolf, especialmente seu fluxo de consciência, inspirou o "rio-de-consciência" de Schuyler, que transita entre personagens. Após encontrar a voz do Rio, ela percebeu a necessidade de outros personagens, como o juiz, sua esposa e o advogado de defesa. Em revisões iniciais, o ritmo era muito rápido, mas Schuyler desacelerou, permitindo que o leitor se aprofundasse em uma consciência antes de passar para outra. Ela introduziu um narrador onisciente para guiar o leitor, descrevendo a "energia nervosa" do tribunal. A autora buscou criar "tecido conectivo" entre as consciências, passando o bastão através de gestos, cheiros ou palavras. Personagens como o jovem George, que testemunha a favor do Rio, foram fáceis de imaginar, dada sua experiência com filhos cheios de energia. Ed, de uma tribo local, exigiu cuidado para evitar estereótipos. Gary, o advogado de defesa contratado por grandes empresas agrícolas, foi um desafio; Schuyler trabalhou para complicá-lo, criando vulnerabilidades que tornassem o personagem mais acessível ao leitor.
Casos legais e a evolução do Direito
Casos como o de 2006 em Tamaqua Borough, Pensilvânia, onde a comunidade lutou para conceder personalidade jurídica aos cursos d'água contra o despejo de lodo tóxico, foram cruciais. A cidade tornou-se o primeiro município dos EUA a reconhecer os direitos da natureza. Esse caso inspirou o Equador a incluir linguagem de Direitos da Natureza em sua constituição em 2008, tornando-se o primeiro país a fazê-lo. Schuyler acredita que sua formação em direito a ajudou a entender a "reconfiguração profunda" que ocorre ao tratar a natureza como pessoa. Embora ainda não tenha havido um caso de rio processado por danos à propriedade, ela prevê que a área legal precisará evoluir para adaptar o conceito de personalidade às entidades naturais, possivelmente eliminando a "responsabilidade" para que não possam ser processadas.
Inspirações Pessoais e o Futuro da Ficção Climática
As pesquisas de Schuyler incluíram conversas com a engenheira de recursos hídricos Cindy Lowney e livros como "The Great Thirst" e "Cadillac Desert", que aprofundaram sua compreensão sobre rios e a história da água na Califórnia. A experiência pessoal de uma enchente em 2005 em Fairfax, Califórnia, onde o San Anselmo Creek transbordou e inundou ruas e casas, também informou a descrição da força destrutiva de um rio. A autora se dedica à ficção climática porque considera o colapso ecológico a "maior crise existencial" da humanidade. "Somos uma espécie que ama histórias", afirma, vendo a escrita como sua forma de explorar essa crise. Atualmente, ela permanece no gênero, focando na relação entre humanos e o "mais-que-humano", explorando um "imenso campo, vagando cegamente, tocando a terra, as árvores, o céu e uma enorme nevasca", em busca de novas abordagens narrativas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





