O novo longa de Chris Rock como roteirista e diretor, “Misty Green”, chega com a proposta de um mergulho no lado sombrio de Hollywood, mas acaba se tornando, acima de tudo, um veículo para sua estrela. Segundo a crítica do site especializado Little White Lies, o filme se apoia quase inteiramente na performance magnética de Rosalind Eleazar, que interpreta uma atriz talentosa cujo brilho foi ofuscado por problemas pessoais e uma reputação de “difícil”.
A obra segue uma trilha similar à de seu filme anterior, “Top Five”, ao dissecar as neuroses da indústria do entretenimento. A diferença fundamental, e que joga a favor de “Misty Green”, é que Rock transfere suas inquietações para uma personagem distante de si mesmo. A tese, no entanto, permanece: o filme funciona por causa de Eleazar, cuja atuação eleva um enredo que, por si só, raramente estaria à sua altura.
O brilho da estrela, a sombra do roteirista
A força de “Misty Green” reside na construção de sua protagonista. Rosalind Eleazar entrega uma performance contida e cheia de nuances, evitando as escolhas óbvias para uma personagem à beira do abismo. Sua Misty é, ao mesmo tempo, um desastre e uma figura altiva, triste e sagaz. Uma cena de audição, em particular, é destacada como o momento em que o filme convence o espectador do talento inegável da personagem, quando ela transforma um diálogo clichê em um momento de verdade brutal, espelhando suas próprias batalhas com dependência e autodepreciação.
É nesse ponto que a direção de Rock encontra seus limites. Enquanto Eleazar constrói uma figura complexa, o roteiro recorre a mecanismos de enredo que soam artificiais. A trama envolve Misty sendo despejada, sua relação com um produtor dúbio interpretado por Adam Driver e as complicações geradas por seu irmão bipolar (Daniel Kaluuya). A crítica aponta que o filme se apoia em temas da cartilha dos Alcoólicos Anônimos, como a busca por redenção e a necessidade de fazer as pazes com o passado, mas a execução nem sempre é sutil.
Um retrato datado de Hollywood
As fragilidades do roteiro ficam mais evidentes nos arcos secundários. A narrativa utiliza reviravoltas forçadas, ou deus ex machina, para resolver os conflitos de Misty, variando do conveniente ao inverossímil. Uma subtrama envolvendo o irmão da protagonista, que é repetidamente parado pela polícia de Los Angeles por se parecer com um suspeito, é vista como uma tentativa datada de inserir relevância política, remetendo a um pânico social mais característico dos anos 1990.
O próprio Chris Rock assume um papel coadjuvante como um diretor que tem um histórico com Misty, mas suas cenas são descritas como um “sopro de ar velho”. Os diálogos sobre racismo, fidelidade e relações de gênero parecem reciclar antigas rotinas de seu stand-up, contrastando com observações mais atuais sobre a Los Angeles de hoje. A leitura é que, em vários momentos, o diretor parece mais interessado em suas próprias tiradas do que em servir à história.
No fim, “Misty Green” vive da tensão entre uma performance central brilhante e um veículo imperfeito. O filme deixa claro o talento de sua protagonista, mas também expõe as limitações de seu criador. A obra funciona na medida em que Rock consegue sair do caminho de sua própria estrela, algo que nem sempre acontece.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





