Nova York, 1991. Em um porão na esquina da Bleecker com a Broadway, um clube efêmero chamado Pool Bar servia de palco não oficial para a cena alternativa. Numa noite qualquer, uma fila de adolescentes se estendia escada abaixo, cada um com seu estilo próprio de cabelo raspado ou colorido, atraídos por uma banda chamada Bushmon. Para James Spooner, recém-chegado à cidade e ainda tentando encontrar seu lugar na comunidade punk, aquela noite seria mais do que um show. Seria uma epifania.

Estar na lista de convidados do vocalista, Ryan Bland, era um selo de pertencimento. Naquele ambiente, a ansiedade de ser aceito se misturava à energia crua do punk rock. O que Spooner descobriria, no entanto, era a complexa dualidade de sua identidade. Aquele porão, que pela primeira vez o fez sentir que ser negro era um ativo, também se tornaria um microcosmo das linhas de segregação que existiam dentro da própria cultura que pregava a união e a quebra de barreiras. A experiência é narrada em seu livro de memórias, "It Starts with Anger: A Punk Beginning. An AFROPUNK Ending.", em trecho publicado pelo site Lit Hub.

Um ativo, uma validação

Dentro do Pool Bar, a demografia era diferente de qualquer outro show punk. Grupos de jovens negros pontuavam o ambiente, transformando os brancos, pela primeira vez na experiência de Spooner, em minoria. Ver a banda Bushmon — cinco homens negros no palco, exalando uma confiança que parecia inatingível — foi transformador. Liderados por Ryan Bland, eles não apenas tocavam; eles criavam um espaço. Para um jovem que se sentia deslocado, tentando conciliar sua negritude com seu espírito punk, a visão era uma validação poderosa. "Ser negro, naquela sala, parecia um ativo", escreve ele.

Ryan Bland tornou-se uma espécie de irmão mais velho, um mentor que ativamente o acolheu. Ele não minimizava sua raça; pelo contrário, fazia questão de montar uma banda negra. A performance da Bushmon, com sua energia magnética e coreografada, borrava as linhas entre palco e plateia, um ideal punk encarnado. Ver Bland mergulhar na multidão e ser sustentado por ela, ou caminhar pelo teto baixo do porão no que ficou conhecido como "spider walk", era testemunhar a criação de uma mitologia em tempo real. Aquilo não era uma história lida sobre os Bad Brains, a lendária banda negra de hardcore. Era uma experiência vivida, presente, que oferecia um modelo de como ser negro e punk simultaneamente.

O rótulo que achata

Contudo, essa validação vinha com um asterisco. Spooner começou a notar que a Bushmon, apesar de sua base de fãs leal e som inegavelmente punk, era consistentemente marginalizada pelos curadores da cena principal. Em vez de dividir o palco com bandas como Murphy's Law ou Bouncing Souls, com as quais tinham afinidade sonora, eles eram agrupados com bandas de funk-rock, soul e ska, muitas delas também com integrantes negros ou latinos. Formava-se uma cena dentro da cena, um ecossistema de artistas não-brancos que, embora vibrante, operava nas bordas do punk "legítimo", aquele validado pelos guardiões brancos do portão.

A suspeita recaía sobre a autenticidade. Bandas com mais de um membro negro eram frequentemente rebaixadas ao rótulo de "Black Rock". O termo, cunhado pela Black Rock Coalition (BRC) em 1985 com a nobre missão de promover a música alternativa negra, acabou se tornando uma faca de dois gumes. Como Spooner observou, a etiqueta achatava artistas genuinamente diferentes em um som unificado, tornando mais fácil para o resto da cena descartá-los em vez de se engajar com sua diversidade. Tornou-se quase um prêmio de consolação, enquanto bandas brancas que também misturavam gêneros — do Red Hot Chili Peppers ao Rage Against the Machine — eram absorvidas sem questionamentos.

Para Spooner, a experiência era como a de Cachinhos Dourados, provando diferentes versões do punk, mas nenhuma parecia servir perfeitamente. Estar com amigos brancos que nunca precisaram lidar com a questão racial o fazia desejar esse mesmo privilégio. No entanto, ignorar sua própria raça parecia uma traição. A identidade que Ryan Bland e a Bushmon ofereceram era a que mais se encaixava, mas se a própria comunidade punk não os aceitava plenamente, o que diriam de seus fãs? O que pensariam dele? A busca por um lugar para pertencer revelava que, mesmo nos espaços de contracultura, as fronteiras da identidade eram tão rígidas quanto no mundo lá fora.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub