A Noruega, um país abastado e com alta qualidade de vida, enfrenta um dilema crescente: a complacência diante da crise climática. Line Ramstad, diretora do Trienal de Arquitetura de Oslo, defende que essa prosperidade traz consigo uma responsabilidade intrínseca de liderar a mudança, adotando uma abordagem "natureza em primeiro lugar" no desenvolvimento de edificações e cidades. Segundo Ramstad, a indústria da construção, apesar de seus esforços em "ser verde", ainda opera dentro de um sistema linear que não é suficiente para mitigar as emissões de carbono. A discussão sobre sustentabilidade na arquitetura, ela argumenta, está atrasada e precisa de um olhar mais holístico e circular.

O Paradoxo Norueguês: Riqueza e Inércia

Ramstad aponta que a Noruega, por não sentir as consequências mais severas das mudanças climáticas de forma imediata, tende a uma menor disposição para mudanças significativas. "Temos começado a falar sobre clima em nossos projetos e negócios, mas tentamos resolvê-lo dentro do sistema que os criou, e mais do mesmo não resolve nada", disse Ramstad em entrevista à Dezeen. Ela ressalta que a abordagem "verde" atual é, na verdade, pouco eficaz, carecendo de um pensamento integrado. A diretora do Trienal acredita que a riqueza do país deveria ser um motor para a inovação e para a adoção de práticas mais radicais em prol do meio ambiente, em vez de um escudo contra a urgência da crise climática. A própria estrutura do país, que permite a construção sobre áreas historicamente alagadiças, como criticado no projeto "General Plan 2.0", exemplifica essa desconexão com as forças naturais.

Uma Chamada por Pensamento Holístico e Circular

A visão de Ramstad transcende a mera eficiência energética ou o uso de materiais reciclados. Ela propõe uma reorientação fundamental na forma como concebemos o espaço construído, colocando a natureza como protagonista. Isso implica repensar o planejamento urbano para que ele coexista harmoniosamente com rios e ecossistemas, em vez de subjugá-los. A experiência de Ramstad como fundadora do grupo de arquitetura sem fins lucrativos Gyaw Gyaw, construindo com comunidades locais na fronteira entre Mianmar e Tailândia por 15 anos, aprofundou sua compreensão sobre os impactos diretos das ações humanas na paisagem natural. "Os resultados de nossas ações são tão claros lá", ela comentou, contrastando com a "distância" que a sociedade norueguesa parece ter desenvolvido em relação a práticas mais intuitivas e conectadas com a terra, como as de seus avós.

O Trienal como Catalisador de Mudança

O Trienal de Arquitetura de Oslo, com o tema "E Se a Natureza Vier Primeiro?", serve como uma plataforma crucial para debater essas questões e impulsionar a reflexão dentro da própria Noruega. Ramstad vê o evento como um catalisador para inspirar uma transição de uma sociedade linear para uma circular. Embora reconheça que a ambição de um futuro "natureza em primeiro lugar" possa soar utópico, ela se sente mais esperançosa após o evento, observando um movimento crescente em direção a um pensamento mais integrado. "Arquitetos estão muito preocupados com [colocar a natureza em primeiro lugar], mas quando o sistema ao redor de um arquiteto não está, é preciso muito para que esse escritório implemente uma mudança por conta própria", admitiu.

Desafios e Oportunidades Futuras

Apesar do otimismo gerado pelo Trienal, a implementação de projetos arquitetônicos que priorizam a natureza ainda enfrenta barreiras sistêmicas significativas. A necessidade de uma mudança cultural e regulatória profunda é evidente. Ramstad espera que as conversas iniciadas no evento inspirem ações concretas, mesmo que graduais. O desafio para a Noruega e outros países desenvolvidos é superar a inércia e a autossatisfação, reconhecendo que a sustentabilidade genuína exige uma reavaliação radical de seus modelos de desenvolvimento. A questão central permanece: será que a Noruega, com sua capacidade e responsabilidade, conseguirá transformar essa visão em realidade, passo a passo?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen Architecture