O cenário para o agronegócio brasileiro é de margens apertadas, custo financeiro elevado e liquidez restrita. Contudo, para gestores de capital que atuam no setor, a dificuldade abre uma janela de oportunidade seletiva. Em um debate na XP Expert, executivos da XP Asset e da Riza Asset argumentaram que a retração de bancos e financiadores tradicionais está forçando os melhores produtores a buscar alternativas no mercado de capitais.
A leitura é que a crise atual funciona como um filtro de qualidade. Com menos capital disponível, os investidores podem escolher a dedo empresas e produtores com balanços mais sólidos, exigindo garantias robustas. A estratégia, segundo os gestores, mudou: o foco não é mais maximizar o retorno a qualquer custo, mas sim preservar o capital e garantir a liquidez das operações.
A peneira do crédito
A dinâmica é clara: a escassez de crédito cria um mercado de compradores. Gustavo Almeida, gestor de Fiagros da XP Asset, afirmou que, embora o ambiente seja desafiador, a gestora tem encontrado “muita oportunidade de negócio” ao focar em operações mais seguras. Isso significa aceitar spreads menores em troca de um risco de crédito mais baixo, priorizando produtores com saúde financeira comprovada.
Essa postura mais conservadora reflete um amadurecimento do mercado de capitais voltado ao agro, que se expandiu com instrumentos como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e os Fiagros. Em momentos de volatilidade, o papel do gestor na originação e no monitoramento do crédito se torna ainda mais crucial, separando os negócios resilientes daqueles que não sobreviverão ao ciclo de baixa.
Do Fiagro ao 'sale and leaseback'
Além do crédito estruturado, outra modalidade ganha tração: o 'sale and leaseback'. Paulo Mesquita, gestor da Riza Asset, descreveu a operação como a principal frente de investimento da casa no momento. O fundo compra a propriedade rural do produtor — frequentemente com desconto, dada a conjuntura — e a arrenda de volta para ele. O produtor faz caixa para atravessar o período difícil, e o fundo adquire um ativo real com um fluxo de renda contratado.
Segundo Mesquita, a queda no preço das terras tornou o negócio mais atrativo. Ele citou o exemplo de Sorriso, em Mato Grosso, onde áreas que valiam R$ 300 mil por hectare hoje são negociadas por R$ 50 mil ou R$ 60 mil. Essa correção de preços, embora dolorosa para quem vende, cria uma oportunidade para o capital paciente e com visão de longo prazo.
Apesar das dificuldades, o consenso entre os gestores é que a competitividade estrutural do agro brasileiro permanece intacta. O momento adverso deve acelerar a consolidação, fortalecendo os produtores mais eficientes e capitalizados. Se o ciclo está ruim para o Brasil, argumentam, provavelmente está ainda pior para concorrentes internacionais menos eficientes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





