Vestidos de patchwork, cabelos emaranhados com um ou dois dreads, bolsos manchados de cinza de cigarro e uma regra de ouro: “Não havia desodorante. A coisa toda fedia”. É assim que Chloë Sevigny, o árbitro incontestável do cool nova-iorquino, descreve seus anos de formação como uma “Deadhead”, fã devota da banda Grateful Dead. A imagem choca com a persona pública da atriz, mas a confissão, parte de uma entrevista para a revista i-D, revela uma camada de complexidade em uma das figuras mais emblemáticas da cultura pop.

Por muito tempo, Sevigny tratou sua paixão pela banda como “um segredo sujo”. Afinal, o Grateful Dead representa o oposto da cena vanguardista de Nova York que a coroou: uma sinceridade quase ingênua, um espírito livre e uma estética que ela mesma define como “normcore antes do normcore existir”. Agora, aos 51 anos, ela não apenas abraça essa identidade, como a explora em “Summer Tour”, um documentário que produziu ao lado do amigo e diretor Mischa Richter, ele mesmo um Deadhead de longa data.

A transcendência do cool

A dissonância entre a imagem de Sevigny e a cultura do Grateful Dead é o centro da questão. Como a mulher que estrelou o vídeo de “Sugar Kane” do Sonic Youth — e que demorou anos para admitir sua paixão para a amiga Kim Gordon — se conectou com uma banda de jam sessions psicodélicas? Para Sevigny, a resposta está na libertação da própria ideia de ser “cool”. “Eles transcendem o cool”, afirma. A cultura Deadhead, com suas camisetas tie-dye e seu aroma de patchouli, oferecia uma visão alternativa da América, uma em que a contracultura dos anos 70 nunca havia morrido.

Essa imersão foi, para ela, um “ano de autodescoberta”. Sevigny conta que os shows e as viagens psicodélicas provocaram uma “mudança de valores”. Era um ambiente mais inocente que outras cenas que circulava na adolescência, um espaço que permitia um comportamento mais juvenil e uma conexão comunitária. A irmandade Deadhead se tornou um porto seguro em sua vida nômade de atriz. “Em quase todos os sets em que estive, há pelo menos um Deadhead”, diz ela. Um simples comentário sobre uma camiseta da banda se torna um passaporte para uma amizade instantânea.

Diário de uma fã

O documentário “Summer Tour” é uma crônica dessa subcultura, mas também um eco da própria juventude de Sevigny e Richter. Os dois se conheceram no colégio em Connecticut, onde ela era uma skatista obcecada por Morrissey e ele, um fã de hardcore. Foi ela quem o introduziu ao Grateful Dead e aos psicodélicos. Juntos, aos 17 anos, invadiram seu primeiro show no Madison Square Garden, descobrindo uma porta secreta que os levou para dentro da arena. Era o início de uma jornada pelo país a bordo de um velho ônibus escolar, vivendo de “goo balls” — uma mistura de maconha, manteiga e chocolate.

Essa memória de ingenuidade e transgressão permeia a entrevista. Sevigny recorda o espanto da mãe ao vê-la voltar para casa com as roupas sujas, enquanto o pai oferecia um conselho mais alinhado ao espírito da estrada: “Não existem viagens ruins, apenas viajantes ruins”. A atriz se considera uma “boa viajante”. A experiência, longe de ser um desvio juvenil, informou sua trajetória, da cena rave do final dos anos 90 à sua carreira no cinema.

Hoje, Sevigny vê a cultura alcançando os Deadheads, com a volta da “cultura de fitas cassete” e a popularidade de marcas como a Online Ceramics, que bebem dessa fonte estética. A devoção da banda a uma visão própria, sem ceder a tendências, é, em sua visão, a prova final de sua relevância. Talvez o segredo para ser verdadeiramente cool, como Sevigny parece ter descoberto, seja simplesmente não se importar com isso.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · i-D