Ele tem o corpo macio, olhos grandes e um sorriso costurado. Mas o abraço de Bezzy, um novo brinquedo de pelúcia, não traz conforto. Ao ser apertado, ele emite um zumbido agudo e incessante — uma gravação real, capturada por uma moradora que vive ao lado de um data center na Virgínia, Estados Unidos.
Esta é a peça central de uma campanha satírica orquestrada pela agência criativa Basura e pelo músico Big Data. Batizada de “Adote um Data Center”, a iniciativa imita programas de adoção de animais ameaçados, como os pandas da WWF, para provocar uma reflexão sobre a proliferação de infraestrutura para inteligência artificial. Segundo uma reportagem da publicação de design Dezeen, o projeto busca dar forma e som ao custo invisível da nuvem.
A materialidade da nuvem
A campanha não se posiciona como “anti-tecnologia”, segundo seus criadores. O objetivo é questionar a responsabilidade por trás das promessas da IA. Enquanto a tecnologia promete transformar o futuro da humanidade, a infraestrutura que a sustenta gera impactos bastante concretos: poluição sonora, consumo massivo de água e energia, e alterações na paisagem e no uso do solo.
As preocupações materializadas no brinquedo ecoam conflitos reais. Moradores de Memphis, no Tennessee, processaram uma empresa de Elon Musk por conta do ruído de suas operações. Cientistas já apontam para a criação de “ilhas de calor” em torno desses complexos. O zumbido de Bezzy é um lembrete tátil de que a nuvem não é etérea; ela é feita de concreto, aço e um consumo energético colossal.
Crítica como objeto
A escolha de um brinquedo de pelúcia é a chave da provocação. Um objeto associado ao conforto e à infância é subvertido para entregar uma mensagem de incômodo. Na etiqueta de Bezzy, lê-se: “Me abrace para um zumbido ensurdecedor e eterno”. A ironia transforma um problema distante e técnico em uma experiência física e pessoal.
Com uma tiragem limitada a 20 unidades, Bezzy não é um produto de massa, mas um artefato de comentário cultural. Sua função não é gerar receita, e sim instigar conversas. Ao transformar o data center em um personagem que ninguém quereria adotar, o projeto expõe o absurdo de acolhermos essa infraestrutura em nossas comunidades sem um debate mais profundo sobre suas consequências.
Em um mundo que corre para abraçar a inteligência artificial, estamos dispostos a ouvir o ruído que ela produz nos bastidores? O zumbido perpétuo de Bezzy oferece uma resposta desconfortável.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





