No início de 2020, às vésperas de uma pandemia global que redefiniria a vida como a conhecíamos, a escritora americana Jehanne Dubrow embarcou em uma missão pessoal: o “Ano da Pele Perfeita”. Aos 40 e poucos anos, confrontada pelo espelho com os sinais do envelhecimento e uma inesperada acne tardia, ela mergulhou em um universo de séruns, óleos e rituais de limpeza. O que começou como uma obsessão particular tornou-se o ponto de partida para uma profunda reflexão filosófica.
Em um ensaio adaptado de seu livro “Frivolity: A Defense”, publicado pelo portal literário Lit Hub, Dubrow eleva o que seria facilmente descartado como vaidade a uma tese sobre sobrevivência e autoafirmação. A busca por uma pele de vidro ou um batom sedutor não é apresentada como uma fraqueza moral, mas como uma ferramenta de resistência. A frivolidade, argumenta ela, pode ser um ato fundamental de insistência na própria existência, especialmente quando o mundo exterior se desfaz.
Um pecado feminino?
A defesa da frivolidade passa, inevitavelmente, por uma crítica à forma como ela é generificada. Dubrow aponta uma dissonância cultural evidente: paixões masculinas, mesmo as mais triviais, são tratadas com seriedade. Um homem adulto pode vestir a camisa do seu time de futebol, debater estatísticas e dedicar seu fim de semana a um jogo sem ser questionado. Seu interesse é legitimado como hobby, paixão, parte de uma cultura.
No entanto, quando uma mulher investe em um perfume caro ou em um vestido de seda, a mesma lógica não se aplica. Seus interesses são frequentemente enquadrados como fúteis, um desperdício de tempo e dinheiro. A autora recorre ao crítico de arte John Berger para contextualizar essa visão. Em “Modos de Ver”, Berger analisa como, historicamente, a mulher é ensinada a se ver como um objeto a ser olhado. O espelho, em pinturas clássicas como “A Vaidade” de Hans Memling, torna-se um símbolo da condenação moral da mulher, que é criticada pela mesma nudez que o pintor retratou para seu próprio deleite. A frivolidade, nesse contexto, torna-se um pecado atribuído majoritariamente ao feminino.
Sobrevivência em um frasco de creme
O argumento de Dubrow ganha força ao conectar essa discussão histórica à sua experiência durante a pandemia. O ritual diário de cuidar da pele, enquanto o mundo se fechava e o medo se tornava palpável, transformou-se em um mecanismo de controle. “Se eu me aproximasse o suficiente do espelho, o mundo se reduzia ao meu rosto”, escreve ela. Focar nos “contornos lunares de um poro” era uma forma de abstrair a contagem de mortos e a incerteza avassaladora. O ato frívolo era, na verdade, uma declaração: “Este corpo está vivo e é permanente”.
Essa ideia encontra eco no ensaísta renascentista Michel de Montaigne. Em seu ensaio “Da Vaidade”, Montaigne sugere que a natureza humana nos empurra a olhar para fora — para os céus, para a briga do vizinho, para qualquer coisa — a fim de evitar o “movimento doloroso” de olhar para dentro e encarar nossa própria miséria. A frivolidade, para Dubrow, é essa “esplêndida desculpa” de que fala Montaigne. É o que nos permite encontrar prazer na fofoca, na moda, no doce, saciando a alma em um mundo que, de outra forma, poderia nos esmagar com sua solenidade e dor.
Ao final, a tese de Dubrow não é um chamado à alienação, mas um convite à ressignificação. As pequenas vaidades e os prazeres ditos supérfluos não são necessariamente uma fuga da realidade, mas uma forma de torná-la suportável. Em um cenário de crise, seja ela pessoal como o envelhecimento ou coletiva como uma pandemia, o cuidado com a aparência ou o deleite com um objeto belo pode ser o que resta de agência. É a afirmação de que, apesar de tudo, ainda há espaço para a beleza, o prazer e, principalmente, para o eu.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





