Em um evento em Londres, a atriz Zendaya posou para fotos com um par de brincos singulares: dois discos de ouro iranianos de 3.000 anos, montados em ouro 18 quilates e diamantes pelo joalheiro Glenn Spiro. A reação foi imediata, mas não veio dos críticos de moda. Vieram dos arqueólogos.
A controvérsia, que rapidamente se espalhou pelas redes sociais, não era sobre o estilo, mas sobre a substância. Apresentar os artefatos como joias, e não como peças de museu, acelera sua mercantilização. O incidente, segundo uma reportagem da Hyperallergic, joga luz sobre um problema muito maior e mais silencioso: a prática do mercado de arte de desmontar objetos antigos para criar novas peças de luxo, vendendo a própria transformação como um valor agregado.
Da escavação à vitrine
O joalheiro responsável pela peça, Glenn Spiro, descreve sua coleção “Materials of the Old World” como uma forma de tornar o antigo “contemporâneo e cool”. A narrativa é sedutora: fragmentos de impérios esquecidos renascem para o presente. Na prática, porém, o processo é destrutivo e irreversível. Contas romanas, egípcias e islâmicas são rotineiramente reconfiguradas em colares modernos; fragmentos têxteis e relevos arquitetônicos são reenquadrados como arte decorativa.
Ao contrário da restauração, que busca estabilizar e preservar um objeto para estudo futuro, este “reaproveitamento” envolve perfurar, cortar e montar. Qualquer informação arqueológica que poderia ajudar a datar ou interpretar a peça é polida e removida. O que se vende não é a história, mas a anulação dela em nome de uma nova estética. O objeto emerge com uma biografia que começa no ateliê do designer, obscurecendo questões sobre sua origem.
A biografia que se apaga
Os brincos de Zendaya são anunciados como “placas de medalhão de ouro Ziwiye, do primeiro milênio a.C. no Irã”. A descrição os conecta ao “tesouro de Ziwiye”, um conjunto de artefatos supostamente descoberto em 1947 em um sítio arqueológico que foi saqueado antes que qualquer escavação formal pudesse ocorrer. Quase todos os objetos atribuídos a essa descoberta surgiram no mercado através de negociantes de antiguidades, tornando sua proveniência impossível de rastrear.
Este processo de transformação funciona como uma lavagem da história. Um objeto potencialmente saqueado ou de origem antiética torna-se um item de design cobiçado. A palavra “antigo” deixa de ser um alerta e vira uma credencial de luxo. A prática não é isolada. A Barakat Gallery, por exemplo, foi criticada por vender esculturas africanas dos séculos XIX e XX repintadas por um dos negociantes, transformando objetos rituais em sua expressão artística pessoal, com preços que chegam a seis dígitos.
O brilho momentâneo dos flashes no tapete vermelho iluminou, por acidente, uma prática sistêmica do mercado de arte. A questão que permanece é se o escrutínio sobreviverá à estreia do próximo filme, ou se a história, mais uma vez, será ofuscada por um novo brilho.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic

