Dois meteoritos que atingiram a Terra com meio século de intervalo estão oferecendo um vislumbre sem precedentes da química que existia antes mesmo da formação do nosso planeta. Em um estudo publicado no The Planetary Science Journal, pesquisadores analisaram amostras do meteorito Murchison, que caiu na Austrália em 1969, e do Aguas Zarcas, que chegou à Costa Rica em 2019. Dentro deles, foi encontrada uma diversidade espantosa: dezenas de milhares de composições moleculares baseadas em carbono.

A descoberta não apenas confirma a existência de uma rica “sopa química” no início do sistema solar, mas também, graças a técnicas avançadas, começa a decifrar sua estrutura. A análise sugere que os ingredientes básicos para a vida não só eram abundantes, como também incrivelmente variados, fornecendo um inventário químico que deu origem aos planetas.

A Arqueologia Molecular

Para chegar a esses resultados, a equipe de cientistas de instituições americanas combinou duas técnicas de ponta. Primeiro, utilizaram um espectrômetro de massa de altíssima resolução para identificar a composição química das amostras. Esse método permitiu catalogar milhares de fórmulas moleculares distintas, revelando a imensa complexidade orgânica do material. O desafio, no entanto, é que uma mesma fórmula pode corresponder a diferentes estruturas moleculares.

Para superar essa limitação, os pesquisadores aplicaram a microscopia de força atômica. A técnica, extremamente delicada e demorada, permite visualizar a arquitetura de moléculas individuais, átomo por átomo. Segundo a reportagem do El Confidencial, que cobriu o estudo, esta é apenas a terceira vez que tal método é aplicado a material meteorítico. A combinação das duas abordagens oferece uma visão em duas escalas: um panorama geral da composição e um close-up direto em estruturas específicas.

Duas Origens, Uma Lição

Um dos pontos mais relevantes da análise é a diferença entre os dois meteoritos. Embora ambos sejam condritos carbonáceos, conhecidos por preservar material orgânico, seus perfis moleculares são notavelmente distintos. Apenas uma pequena fração de suas composições complexas coincide, sugerindo que os asteroides dos quais se originaram evoluíram em ambientes químicos diferentes no sistema solar primitivo, com variações de temperatura, presença de água e outras reações.

O meteorito Murchison, em particular, é descrito como um material de pelo menos 5,5 bilhões de anos — mais antigo que a própria Terra. A pesquisa não prova que a vida chegou ao nosso planeta a bordo de meteoritos, mas demonstra de forma conclusiva que o espaço era um laboratório químico fértil. A capacidade de passar de uma lista de fórmulas para a observação da arquitetura molecular abre um novo caminho para reconstruir o inventário químico disponível durante as primeiras etapas da formação planetária.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech