Em 1954, nos jardins da Cidade Universitária, na Cidade do México, um carro peculiar era exibido na feira "Alemanha e sua Indústria". Poucos sabiam que aquele Volkswagen Sedan, de design arredondado e motor traseiro, iniciaria uma saga que o transformaria em um ícone cultural, o "Vocho". O exemplar é considerado o primeiro a rodar no país, uma semente do que viria a ser uma das mais profundas relações entre uma nação e um automóvel.

A trajetória do carro que o Brasil conheceu como Fusca e o México como Vocho é mais complexa do que sua mecânica simples sugere. É uma história que começa não em uma linha de montagem, mas na prancheta de um engenheiro, atravessa uma guerra mundial e renasce das cinzas por uma decisão improvável de seus antigos inimigos, para então conquistar o mundo.

Um projeto, uma guerra, um recomeço

A ideia do Fusca é anterior à própria Volkswagen. Em 1934, Ferdinand Porsche foi comissionado para desenvolver um "carro do povo" na Alemanha. O primeiro protótipo surgiu um ano depois, mas a empresa que o produziria, a Volkswagenwerk GmbH, só foi constituída em 1937. O projeto, no entanto, foi atropelado pela história. Com o início da Segunda Guerra Mundial, a fábrica de Wolfsburg foi convertida para a produção de armamentos, e o carro foi rebatizado de KdF-Wagen. Apenas 630 unidades foram feitas até o fim do conflito.

O destino do projeto mudou com a derrota alemã. A fábrica ficou sob administração do governo militar britânico, que, em vez de desmantelá-la, viu uma oportunidade. O major Ivan Hirst liderou a reorganização das instalações para produzir veículos para as forças de ocupação. Em agosto de 1945, os britânicos fizeram um pedido de 20 mil veículos. A produção em série começou oficialmente em 27 de dezembro daquele ano, data que a própria VW considera o início da era Beetle. O carro do povo alemão foi, na prática, salvo pelos ingleses.

De milagre alemão a lenda latina

O Fusca tornou-se um dos pilares do "milagre econômico alemão", um símbolo da reconstrução do país. Sua simplicidade, confiabilidade e baixo custo o transformaram em um sucesso de exportação, chegando a todos os continentes. Em nenhum lugar, contudo, sua história foi tão longeva quanto no México. A produção na planta de Puebla começou em 1967 e só terminou em 31 de julho de 2003, quando a última unidade do clássico Sedan foi fabricada no mundo.

No México, assim como no Brasil, o carro se tornou parte da paisagem e da identidade nacional. Sua facilidade de reparo e robustez o tornaram o veículo ideal para as condições locais. O apelido "Vocho" — uma provável corruptela de Volkswagen ou do termo "boche", usado para se referir aos alemães nas guerras — pegou e se tornou mais forte que o nome oficial. Ao todo, quase 1,7 milhão de unidades saíram da fábrica de Puebla, encerrando um ciclo de produção global de mais de 21,5 milhões de carros.

O fim da produção no México marcou o encerramento de uma era. Mais do que um meio de transporte, o Fusca foi uma plataforma para a expressão individual e um personagem onipresente na vida de milhões de pessoas. Um carro projetado sob a sombra de um regime totalitário que, por uma ironia do destino, se tornou um símbolo de liberdade e cultura pop nas Américas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX