O Clark Art Institute, um dos mais respeitados museus de arte dos Estados Unidos, localizado em Williamstown, Massachusetts, anunciou o que chama de uma das mais significativas coleções de arte europeia formadas na América do Norte no século XXI. Trata-se do legado de Aso O. Tavitian, um nome mais associado ao desenvolvimento de software do que aos mestres da Renascença. A doação inclui 331 obras, entre pinturas, esculturas e desenhos, além de um aporte de US$ 45 milhões para a construção de uma nova ala e para a dotação de um cargo de curador.
O movimento é mais do que uma adição de prestígio ao acervo. É uma recalibragem estratégica para o Clark, viabilizada por uma figura atípica no mundo da alta filantropia. Tavitian, falecido em 2020 aos 80 anos, não era um herdeiro ou um financista de Wall Street, mas um refugiado búlgaro de ascendência armênia que chegou aos EUA durante a Guerra Fria, formou-se em física nuclear e comandou a empresa de software Syncsort por mais de três décadas. Sua história e a precisão cirúrgica de sua coleção oferecem um estudo de caso sobre como a riqueza gerada pela tecnologia pode se converter em um legado cultural duradouro e profundamente pessoal.
Uma coleção improvável
A trajetória de Aso Tavitian desafia o estereótipo do colecionador de arte. Ele começou a montar seu acervo tardiamente, aos 64 anos, e em apenas 16 anos construiu um conjunto de obras que museus globais levariam gerações para igualar. Segundo reportagem da ARTnews, que conversou com a direção do museu, Tavitian era um colecionador decidido e extremamente bem informado, que competia diretamente com as maiores instituições do mundo em leilões e negociações privadas.
Sua abordagem combinava paixão com rigor analítico. Ele construiu uma rede de conselheiros que incluía negociantes como o francês Etienne Bréton, responsável por redescobrir obras perdidas em coleções particulares, e o renomado conservador David Bull, cujo olhar clínico para a qualidade e o estado das peças foi fundamental. Tavitian não acumulava, ele selecionava. O resultado é um acervo coeso, focado em mestres europeus do período moderno inicial (1500-1800), com peças de Jan van Eyck, Peter Paul Rubens e Jacques-Louis David. A própria doação foi um processo curatorial: o Clark foi convidado a selecionar, dentre as propriedades do empresário, as obras que melhor complementariam sua coleção existente.
De reforço a pilar estratégico
O termo "transformador", frequentemente banalizado por museus ao anunciar doações, aqui se aplica com precisão. O acervo histórico do Clark tem sua força na arte francesa do século XIX, uma paixão de seus fundadores. A arte europeia dos séculos anteriores, embora presente com peças de destaque como um Piero della Francesca, era uma área comparativamente menor. A coleção Tavitian não apenas preenche essa lacuna; ela a converte em um novo pilar para a instituição.
Com a doação, o acervo de esculturas do museu praticamente dobra. A presença de artistas como Jacques-Louis David, de quem o museu possuía um retrato, é agora fortalecida com outras três obras, tornando o Clark um centro relevante para o estudo do artista. O presente vai além dos objetos: os US$ 45 milhões garantem a construção, até 2028, de uma nova ala projetada pela arquiteta Annabelle Selldorf — nome requisitado por instituições culturais — e financiam perpetuamente a posição de um curador dedicado à coleção. O movimento solidifica a infraestrutura do museu para pesquisa e exposição, elevando seu status de instituição de prestígio para um centro de pesquisa indispensável para o período.
Em uma era em que a filantropia dos bilionários da tecnologia é frequentemente questionada por sua escala impessoal ou por focar em soluções de engenharia para problemas sociais, o legado de Tavitian ressoa de forma diferente. É a história de um humanista, um imigrante que prosperou através da ciência e da tecnologia, mas que dedicou a parte final de sua vida a construir, com método e paixão, uma ponte para o passado. Sua coleção não é apenas um ato de generosidade, mas um argumento sobre o que constitui uma vida bem vivida e um legado que transcende o código-fonte.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews




