A inteligência artificial prometia devolver aos executivos seu bem mais precioso: o tempo para pensar estrategicamente. No entanto, um efeito colateral inesperado parece estar se consolidando nas empresas brasileiras. Um em cada quatro diretores e executivos C-level admitiu ter deixado de delegar tarefas no último mês por acreditar que, com o auxílio da IA, faria o trabalho mais rápido sozinho.
O dado vem de uma pesquisa com 4,3 mil profissionais conduzida pela Afferolab, plataforma de educação corporativa, em parceria com a Tera. O levantamento expõe uma tensão fundamental da era da IA generativa: o ganho de produtividade individual de um líder pode se tornar, paradoxalmente, um obstáculo ao desenvolvimento de sua equipe. Se o chefe se torna um “super-executor”, quem assume a responsabilidade de formar novos talentos e distribuir conhecimento na organização?
O ganho do indivíduo, o custo da equipe
O dilema não se restringe ao topo da pirâmide. Segundo o mesmo estudo, 69% dos profissionais da média gerência afirmam utilizar IA em tarefas que poderiam ser delegadas. A tentação é compreensível. A pesquisa mostra que o uso da tecnologia já é disseminado para tarefas de execução, com 87,5% dos profissionais usando IA para gerar textos e 67,1% para analisar dados. A capacidade de produzir relatórios, apresentações e análises de forma quase instantânea torna a centralização uma via de menor atrito no curto prazo.
O problema é que delegar uma tarefa nunca foi apenas uma questão de gestão de tempo. É o principal mecanismo para expor colaboradores a novos desafios, testar suas capacidades e permitir que desenvolvam competências. Quando um gestor opta por executar uma atividade sozinho com IA, ele pode até entregar o resultado mais rapidamente, mas priva um membro da equipe de uma oportunidade de aprendizado. No longo prazo, essa escolha pode minar a resiliência e a capacidade de inovação do time, que se torna excessivamente dependente da figura do líder-executor.
Produtividade não é sinônimo de automação
Outros estudos reforçam a percepção de ganho individual. Um levantamento sobre tendências de talento na América Latina mostra que 75% dos executivos brasileiros já usam IA generativa, e 83% deles afirmam que a tecnologia aumentou sua produtividade. A questão, no entanto, é se essa eficiência pessoal se traduz em ganhos para a organização. Uma pesquisa da Stanford Graduate School of Business, com 6 mil executivos globais, lança uma sombra sobre essa correlação: apesar da ampla adoção, os líderes projetam um ganho médio de produtividade de apenas 1,4% para suas empresas.
A discrepância sugere que o gargalo não está na ferramenta, mas na estratégia de seu uso. O estudo da Afferolab/Tera aponta na mesma direção: enquanto a maioria usa IA para executar tarefas, apenas 37,8% a empregam para automatizar processos repetitivos de forma estruturada. E um número ainda menor, 6,7% dos gerentes, atinge o estágio mais maduro, em que delegam e capacitam ativamente suas equipes no uso da tecnologia. Isso indica que muitas empresas estão colhendo os benefícios individuais da IA, mas ainda não descobriram como transformá-la em uma alavanca organizacional.
A transição de uma ferramenta de produtividade pessoal para um ativo estratégico corporativo exige uma recalibragem do que se espera de um líder. A competência-chave deixa de ser a habilidade de usar a IA e passa a ser a capacidade de orquestrar seu uso para ampliar o potencial da equipe. Se o tempo liberado pela tecnologia for reinvestido apenas na execução de mais tarefas, o resultado será um executivo mais eficiente, mas não necessariamente uma organização mais forte. O verdadeiro teste de maturidade será observar o que os líderes fazem com o tempo que a IA lhes devolve.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





