O cineasta Eugene Kotlyarenko, que já havia explorado a obsessão pela fama digital em 'Spree' (2020), retorna ao tema da vida mediada por telas com 'Vintage Violence', um thriller de crime descrito como absurdo e caótico. O filme foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF), consolidando a visão do diretor sobre nossa cultura hiperconectada.

Segundo uma crítica do The Verge, a obra se destaca pela forma como integra mensagens de texto, livestreams e outras interfaces digitais diretamente na narrativa. A aposta não é nova, mas 'Vintage Violence' parece levar a linguagem ao extremo, transformando a experiência de assistir a um filme em algo tão frenético quanto rolar o feed de uma rede social.

A tela como protagonista

O cinema há anos tenta capturar a onipresença da tecnologia em nossas vidas, mas com resultados irregulares. Filmes de terror como 'Deadstream', que emula uma transmissão na Twitch, encontraram um nicho fértil. 'Vintage Violence', contudo, parece transcender o formato de "found footage digital" para criar uma gramática própria, onde a tela do celular não é apenas uma janela, mas o próprio palco dos acontecimentos.

A proposta de Kotlyarenko é apresentar um thriller que espelha o vício em smartphones — "para viciados em celular", como descreve a fonte. A narrativa fragmentada, o humor ácido e a violência explícita se misturam em um fluxo de informação que reflete a ansiedade e o excesso de estímulos da vida contemporânea.

A assinatura de Kotlyarenko

Com 'Vintage Violence', Kotlyarenko solidifica sua posição como um cronista da era digital. Se em 'Spree' o foco era a busca desesperada por relevância de um motorista de aplicativo que se torna um assassino em série ao vivo, aqui o escopo parece se ampliar. O novo filme, um thriller de crime, sugere que a lógica da performance e da audiência instantânea já contaminou todas as esferas da vida, inclusive o submundo.

A análise do The Verge aponta para uma combinação de "muito sangue, piadas e tempo de tela". Essa tríade define o estilo do diretor: a violência não é apenas gráfica, mas espetacularizada, tratada como conteúdo a ser consumido. A comédia surge do absurdo dessa situação, onde a mediação da tela dessensibiliza tanto os personagens quanto, potencialmente, o espectador.

Resta saber se essa estética caótica é um retrato fiel de uma era ou um beco sem saída narrativo. Ao transformar a ansiedade digital em gênero cinematográfico, 'Vintage Violence' questiona não apenas o que assistimos, mas como assistimos — e o que essa forma diz sobre nós.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Verge