O mercado de trabalho em tecnologia no Brasil dá sinais de um reaquecimento seletivo. Um levantamento do portal Startups identificou mais de 180 vagas abertas em diversas startups e empresas de base tecnológica, abrangendo desde posições de engenharia e dados até logística, finanças e direito. Nomes como Shopper, Caju, EVEO e até o escritório Mattos Filho estão em busca de profissionais.
A movimentação, embora modesta se comparada aos picos de euforia do passado recente, sugere uma mudança de fase. Após um período de correções e demissões em massa, a reabertura de posições não indica um retorno ao crescimento a qualquer custo. A análise do perfil das vagas aponta para uma busca mais criteriosa, focada em eficiência operacional e especialização, delineando os contornos de um ecossistema mais maduro e pragmático.
A ambidestria como moeda corrente
O profissional mais cobiçado nesta nova fase parece ser o “ambidestro”. Segundo um estudo do Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli) em parceria com a WKS, citado na reportagem, as habilidades comportamentais — as chamadas soft skills — ganharam protagonismo. Comunicação (21%), criatividade (17,8%) e organização (15,1%) são as qualidades mais valorizadas, superando em importância a proficiência em uma única linguagem de programação.
A leitura aqui é que o capital, agora mais escasso e caro, exige maior retorno sobre cada contratação. Empresas buscam profissionais capazes não apenas de executar tarefas técnicas, como dominar ferramentas de nuvem ou metodologias ágeis, mas também de navegar a complexidade organizacional, colaborar entre áreas e liderar projetos. O tempo em que se podia escalar equipes inflando o quadro de pessoal com especialistas de nicho parece ter ficado para trás. A eficiência agora reside em times mais enxutos e multifacetados.
O mosaico das oportunidades
A diversidade das posições abertas é outro indicador de maturidade. A Shopper, por exemplo, busca 100 profissionais para logística, expondo a espinha dorsal operacional que sustenta a conveniência do supermercado digital. Em outra ponta do espectro, a deeptech TideWise, que opera barcos autônomos, contrata operadores de USV (Unmanned Surface Vehicle), sinalizando que seus produtos saem do laboratório para o mundo real.
Outras vagas contam uma história similar de sofisticação. A fintech BlockBR busca um analista de compliance sênior, refletindo a crescente pressão regulatória. A EVEO procura um gerente de IA, mostrando a internalização de uma tecnologia antes vista como experimental. Talvez o sinal mais claro venha de fora do ecossistema de startups: o escritório Mattos Filho, uma das maiores bancas do país, está contratando um advogado pleno com foco exclusivo em Venture Capital. Quando a infraestrutura de serviços ao redor de um setor se especializa a esse ponto, é sinal de que a atividade atingiu um novo patamar de consistência e complexidade.
O degelo no mercado de trabalho em tecnologia é real, mas não é uniforme. As portas se reabrem, mas a chave de entrada mudou. A demanda não é apenas por quem sabe construir, mas por quem sabe construir de forma eficiente, integrada e escalável em um cenário de maior disciplina de capital. A questão que se impõe para os profissionais não é apenas técnica, mas estratégica: como se tornar essa peça ambidestra que o novo momento do mercado exige.
Com reportagem de Brazil Valley
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