O escritor Cory Doctorow, conhecido por cunhar o termo “enshittification” (algo como “merdificação”) para descrever a degradação de plataformas digitais, publicou um argumento contundente: a busca por uma “IA soberana” é “nonsense”. Para ele, o foco de nações preocupadas com a autonomia digital deveria ser outro, muito mais básico e urgente.
A discussão, reportada pelo site The Register, emerge em um contexto de crescente instabilidade geopolítica e do temor de que os Estados Unidos, sob uma liderança imprevisível, possam usar sua dominância tecnológica como arma. A tese de Doctorow é que, diante dessa ameaça, a corrida para desenvolver modelos de IA locais é uma distração cara e ineficaz. O verdadeiro risco, argumenta, não está no acesso a chatbots, mas na dependência de softwares essenciais que sustentam a economia.
A distração custosa
A crítica de Doctorow é pragmática. Ele questiona: qual seria o impacto econômico real se, da noite para o dia, os EUA bloqueassem o acesso a todos os chatbots de IA para outros países? Provavelmente, um dano marginal. Agora, imagine o mesmo cenário se a Microsoft desabilitasse o Office 365 ou se a John Deere tornasse seus tratores inoperantes remotamente. O impacto seria imediato e devastador. Para ele, a IA generativa é, até agora, “a tecnologia que mais perde dinheiro na história humana”, com desempenho consistentemente abaixo das promessas de seus entusiastas.
O debate não é monolítico. O escritor australiano John Quiggin, por exemplo, também vê risco na dominância americana, mas aposta que “segundos a se mover”, como a francesa Mistral, podem replicar as capacidades dos líderes com uma fração do custo. A questão levantada por Doctorow, no entanto, é mais fundamental: mesmo que seja possível, replicar esses modelos é a estratégia correta? Se a tecnologia em si tem relevância econômica questionável, a soberania sobre ela é uma vitória vazia.
A soberania pragmática
O caminho proposto por Doctorow é menos glamoroso, porém mais estratégico. Em vez de entrar na corrida especulativa da IA, ele defende que os países invistam na construção de aplicativos e data centers para rodar o software do dia a dia: sistemas administrativos, telecomunicações e plataformas de e-commerce. O desafio real, segundo ele, é migrar os dados de governos, empresas e cidadãos para essas novas plataformas soberanas.
Essa visão desloca o eixo da conversa. A soberania digital deixa de ser sobre ter um LLM nacional para competir com o GPT-4 e passa a ser sobre garantir o controle da infraestrutura que de fato opera a sociedade. Para países como o Brasil, a provocação é direta: vale mais investir recursos finitos na fronteira especulativa da IA, um jogo dominado por poucas Big Techs, ou em fortalecer a autonomia sobre os sistemas digitais que já são críticos hoje?
O debate sobre o futuro da IA segue acalorado, mas a análise de Doctorow introduz uma dose de realismo crucial. Diante de riscos geopolíticos concretos, a prioridade talvez não seja construir o carro mais rápido da corrida, mas garantir que se tem controle sobre o motor, os pneus e, principalmente, a estrada.
Source · The Register





