Uma varinha de condão brilhante, com uma estrela cravejada de joias na ponta. A pessoa a agita no ar para realizar um pagamento. O produto, chamado Cash App Wand, não resolve um problema que ninguém tinha. Seu propósito, segundo Brooke Ellis, diretora de design da Block, é injetar “capricho, personalização e estilo no processo de pagamento”. Lançado como uma novidade, o lote esgotou em dez minutos. O sucesso de um objeto tão deliberadamente lúdico aponta para uma nova verdade no mundo do design: à medida que a inteligência artificial generativa torna a criação mais rápida e barata, o valor se desloca da execução para a intenção.

“Mais nem sempre é melhor. Mais rápido nem sempre é melhor”, afirmou Emily Galloway, diretora sênior de design de produto do Spotify, durante um painel no Fast Company Innovation Festival. Com o custo de inventar algo novo mais baixo do que nunca, o verdadeiro desafio passa a ser discernir o que de fato vale a pena construir. A tese, compartilhada por líderes da indústria, é que o julgamento humano se tornou o ativo mais escasso e valioso.

A alma na máquina

O DJ por IA do Spotify, lançado em 2023, é um estudo de caso dessa nova dinâmica. A ideia era criar um companheiro para guiar os usuários por suas playlists, mas o risco era soar como uma interrupção robótica e fria. A solução não foi tecnológica, mas humana. A voz do DJ foi modelada a partir de um funcionário real, Xavier Jernigan, que já tinha credibilidade como curador musical e experiência em podcasts. Ele deu ao projeto um verniz humano, uma personalidade.

Para garantir que a IA não soasse genérica, o Spotify criou o que Galloway descreve como uma “sala de roteiristas”: um time multidisciplinar com escritores, especialistas em cultura e música, e engenheiros. Eles não prescrevem cada fala, mas desenham um sistema mais amplo, um guia de estilo para a IA. O objetivo é garantir que, mesmo gerada por uma máquina, a experiência tenha um ponto de vista, um sabor humano.

Do recorde mundial ao capricho

Se a aplicação de IA em um app de música parece óbvia, em uma centenária empresa de artigos esportivos, o caminho é menos evidente. A Brooks Running, no entanto, usou a tecnologia para um fim de altíssima performance. A empresa utilizou IA para analisar a biomecânica de um corredor específico, Josh Kerr, e em oito meses desenvolveu uma sapatilha sob medida para que ele pudesse quebrar o recorde mundial da milha. O feito levanta a questão: “Se isso pode significar um recorde mundial para Josh, o que poderia significar para corredores comuns?”, pondera Carson Caprara, CPO da companhia.

O projeto da Brooks e a varinha de condão da Block representam dois extremos do design assistido por IA. Um busca o pico da eficiência humana; o outro, o prazer do inesperado. Ambos, no entanto, partem de uma liderança humana que define o objetivo. A tecnologia é a ferramenta, mas a visão, o gosto e a imaginação ainda são o ponto de partida. Como resume Ellis, o futuro do bom design está em deixar espaço para os humanos imaginarem. Quando o custo de criar tende a zero, a única pergunta que importa não é mais “como?”, mas “por quê?”.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company