Um levantamento da Indexa Pesquisas, divulgado pelo Broadcast do Grupo Estado, coloca o senador Flávio Bolsonaro (PL) como o pré-candidato à Presidência mais associado pelos eleitores a um eventual corte de benefícios sociais. Segundo a pesquisa, 45% dos entrevistados acreditam que ele poderia adotar tal medida se eleito. Na ponta oposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é visto por 48% como o nome que mais provavelmente ampliaria os programas.
Os números expõem um desafio de narrativa central para o bolsonarismo. A percepção do eleitorado parece mais atrelada à marca ideológica original do movimento, associada à agenda de austeridade fiscal do ex-ministro Paulo Guedes, do que às ações pragmáticas do governo de Jair Bolsonaro, que promoveu uma expansão recorde de programas de transferência de renda às vésperas da eleição de 2022.
A marca do ajuste
Na avaliação de Arilton Freres, CEO da Indexa Pesquisas, a associação de Flávio ao corte de benefícios é um reflexo direto da polarização. Para o pesquisador, a resposta do eleitorado consolidado de Lula é mais uma “marca ideológica” de oposição do que uma “análise crítica” das propostas do senador. Essa percepção persiste mesmo diante de um histórico recente que a contradiz.
O governo Bolsonaro, afinal, substituiu o Bolsa Família pelo Auxílio Brasil, elevando o valor do benefício e ampliando sua base. Como lembrou Freres, na reta final da disputa de 2022, “o que não faltou foi ampliação de programas sociais”. O fato de a memória do ajuste liberal de 2018 ainda ecoar com mais força que a do pragmatismo eleitoral de 2022 revela a profundidade com que certas ideias se fixam no imaginário político.
O paradoxo eleitoral
O paradoxo para a campanha de Flávio Bolsonaro é evidente. Enquanto o campo lulista consegue capitalizar com sucesso a imagem de protetor dos programas sociais, o bolsonarismo carrega o passivo de uma agenda econômica que, embora parcialmente abandonada na prática, continua a definir sua identidade para uma parcela significativa do eleitorado. A pesquisa mostra que 10% dos eleitores também associam Lula a possíveis cortes, mas o saldo de percepção é esmagadoramente favorável ao petista.
Isso significa que qualquer aceno de Flávio Bolsonaro a uma agenda de responsabilidade fiscal ou corte de gastos na máquina pública tende a ser imediatamente interpretado por seus opositores como uma ameaça direta aos benefícios sociais. Desfazer esse nó narrativo, que conecta o sobrenome Bolsonaro a uma agenda de austeridade, é talvez um dos principais desafios para a viabilidade de sua candidatura ao Planalto.
A pesquisa da Indexa não mede apenas a intenção de voto, mas mapeia os terrenos simbólicos onde a batalha eleitoral será travada. A campanha do PL terá de decidir se confronta essa percepção de frente ou se tenta contorná-la. O que os dados indicam é que o fantasma do ajuste fiscal, real ou percebido, permanece como uma sombra sobre o projeto político da família Bolsonaro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





