Em 1957, um evento singular ocupou as manchetes dos jornais de Nova York. Robert Briscoe, o recém-eleito prefeito de Dublin, chegava para a tradicional parada de St. Patrick’s Day. O fato seria corriqueiro, não fosse por um detalhe: Briscoe era judeu. A imprensa descreveu sua presença como um "evento agradável, mas bizarro", uma anomalia que expunha, sem querer, as complexas e por vezes contraditórias camadas da identidade nacional e religiosa.
Este paradoxo — ser, ao mesmo tempo, parte e aparte — ecoa no cerne da experiência judaica moderna, um tema dissecado pelo historiador Sander L. Gilman em seu livro Antisemitisms: A History of Jew Hating. A questão, segundo Gilman, tornou-se ainda mais aguda após 1948. A fundação do Estado de Israel não apenas ofereceu um porto seguro, mas também solidificou uma ideologia, o sionismo, cuja premissa central é a shlilat ha-golah: a negação da diáspora. A vida judaica fora de Israel passou a ser vista, por essa ótica, como uma anomalia a ser corrigida, uma condição que levaria inevitavelmente à assimilação ou à perseguição.
A Casa e o Deserto
A tensão entre pertencimento e dispersão é antiga, um fio que percorre a história judaica. Gilman evoca a dialética bíblica entre o deserto e a terra prometida, o nomadismo e a agricultura, a tenda e a casa. Essa dualidade se manifesta na própria linguagem. Existe a galut, o exílio involuntário e doloroso, a expulsão. E existe a tfutsot, a dispersão voluntária, que pode ser culturalmente rica e vibrante. Duas pessoas podem viver no mesmo lugar e tempo, mas uma pode sentir o peso da galut enquanto a outra experimenta a potência da tfutsot.
O sionismo, em sua formulação mais radical, buscou anular essa ambiguidade. O objetivo era transformar o judeu diaspórico, visto como desenraizado e vulnerável, em um cidadão soberano em sua própria terra. O paradoxo, aponta Gilman, é que o próprio Estado de Israel foi construído por comunidades diaspóricas, cada uma trazendo consigo suas próprias geografias e tradições. A tentativa de criar uma identidade una e territorializada acabou por recriar, dentro de suas fronteiras, um microcosmo das diásporas que pretendia superar.
Identidades em Trânsito
A identidade, no entanto, recusa-se a ser estática. Gilman ilustra como essas categorias se transformam em contato com a realidade. Os filhos de israelenses que se mudam para Berlim podem se tornar judeus alemães ao chegarem a Nova York. Judeus seculares da antiga União Soviética podem se descobrir ultra-religiosos nos Estados Unidos ou em Israel. A identidade não é uma essência fixa, mas uma negociação constante com o contexto.
Essa fluidez desafia qualquer definição monolítica. Assim como a sociedade pode sustentar imagens contraditórias sobre os judeus — ora como capitalistas vorazes, ora como anarquistas revolucionários —, o próprio indivíduo pode abrigar modelos de identidade que parecem antitéticos. A rejeição sionista da diáspora convive com a realidade de milhões de judeus que constroem vidas plenas e significativas fora de Israel, e com israelenses que escolhem viver no exterior. O que em um momento é uma contradição, no momento seguinte pode se tornar complementar.
No fim, a análise de Gilman sugere que essas disparidades não são uma falha no sistema, mas o próprio sistema. A tensão entre o universal e o particular, entre a diáspora e Sião, não é um problema a ser resolvido. É o motor que impulsiona a contínua reinvenção do que significa ser judeu no mundo contemporâneo. A questão não é escolher entre a terra e o mundo, mas aprender a habitar a complexidade de pertencer a ambos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





