O esforço financeiro para adquirir uma casa na Espanha aumentou 88,6% desde 1980, um salto quase nove vezes superior ao da média da zona do euro, que foi de 10% no mesmo período. A conclusão, de um estudo do Banco da Espanha, expõe um profundo descompasso entre a economia do país e a de seus principais parceiros europeus.

O problema não reside apenas na valorização dos imóveis, um fenômeno global, mas na velocidade com que os preços se distanciaram da capacidade de pagamento da população. A análise, repercutida pelo site Xataka, revela que enquanto a renda disponível das famílias espanholas cresceu 1,8 vez nos últimos 45 anos, o preço da habitação se multiplicou por 3,5. Este abismo coloca o país numa categoria à parte, levantando questões sobre a sustentabilidade de seu modelo de desenvolvimento urbano e social.

O descompasso histórico

A divergência espanhola fica ainda mais nítida quando comparada a outras grandes economias do bloco. Na França, o aumento do esforço de compra foi de apenas 9,1%, enquanto na Alemanha e na Itália, a acessibilidade à moradia chegou a melhorar no período. O relatório do banco central espanhol mapeia essa trajetória em fases distintas: uma melhora até a entrada do país na Comunidade Econômica Europeia em 1986, seguida por uma deterioração acentuada até o pico da bolha imobiliária de 2007.

Após uma correção significativa que durou até 2015, o mercado engatou uma nova fase de recuperação, na qual os preços voltaram a crescer em ritmo superior à renda. Atualmente, o esforço para adquirir uma casa na Espanha, embora 18% abaixo do pico de 2007, é 40% superior ao que era na década de 1990, indicando um novo patamar estrutural de dificuldade.

Oferta, demanda e o futuro

Na raiz do problema, o Banco da Espanha aponta para um fator clássico, mas agudo no contexto local: o descasamento entre oferta e demanda. Estima-se um déficit de 750 mil residências no país, reflexo de um ritmo de formação de novos lares muito superior à construção de novas unidades habitacionais. Essa escassez é particularmente grave em centros como Madrid, Barcelona e Alicante, pressionando ainda mais os preços.

Para as famílias que não possuem imóvel próprio, a conta é dura: são necessários quase sete anos de renda líquida para adquirir uma propriedade. O estudo do Banco da Espanha não apenas quantifica um problema econômico, mas descreve uma barreira social que redefine o que significa prosperar no país.

A questão que permanece é se políticas públicas conseguirão reequilibrar a oferta e a demanda ou se o sonho da casa própria na Espanha se consolidará como um privilégio para poucos, alterando fundamentalmente as expectativas de uma geração.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka