A era do estádio como uma catedral isolada para o esporte, cercada por um mar de asfalto e silenciosa na maior parte do ano, está com os dias contados. Um consenso notável emergiu entre nove dos principais arquitetos de estádios do mundo, consultados pela publicação especializada Dezeen: o futuro desses megaempreendimentos não está em sua forma ou estilo, mas em sua completa dissolução no tecido urbano.

Mais do que projetar conchas arquitetônicas espetaculares, firmas como Populous, Zaha Hadid Architects (ZHA), HOK e BIG estão redefinindo o estádio como a âncora de distritos de uso misto, vibrantes e economicamente ativos. A tese central é que o maior desafio dessas estruturas — sua ociosidade em dias sem jogos ou eventos — só pode ser resolvido quando elas deixam de ser um destino final para se tornarem parte integrante da vida cotidiana da cidade.

Da monocultura ao ecossistema urbano

A principal diretriz que molda os projetos da próxima década é a transformação do estádio em um catalisador cívico. O modelo de "isolar estádios em terrenos baratos", como define Fred Ortiz, da HKS, está sendo substituído por empreendimentos que integram esporte, entretenimento, hotelaria, varejo e até moradia. O objetivo é garantir ativação 24/7 e, consequentemente, viabilidade financeira e relevância urbana.

Exemplos já em andamento, como os planos para os clubes Manchester City e Birmingham City, na Inglaterra, apontam para a criação de verdadeiros "distritos de entretenimento". Jim Heverin, diretor na ZHA, nota que novos proprietários de clubes, muitos sem histórico no futebol, trazem uma visão de negócio pragmática, buscando maximizar o retorno sobre ativos imobiliários valiosos. A inspiração, curiosamente, pode vir do passado. Projetos na Arábia Saudita, como o estádio de Jeddah, embutem a arena na malha da cidade, uma abordagem que Heverin compara aos históricos campos britânicos, como o Highbury, que eram cercados por casas.

Sustentabilidade e experiência, além do óbvio

A agenda de sustentabilidade também foi redefinida. Para além de painéis solares e materiais reciclados, a discussão agora é sobre impacto urbano e ciclo de vida. "Construir menos e adaptar mais", como resume Martin Glass, da GMP Architekten, torna-se um mantra. Um estádio conectado ao transporte público, intensivamente usado e adaptável ao longo de décadas será inerentemente mais sustentável do que uma arena tecnologicamente avançada que permanece vazia.

Nesse contexto, materiais de baixo carbono ganham protagonismo. Arquitetos da SOM e da BIG acreditam que a indústria está se aproximando do primeiro grande estádio construído em madeira engenheirada (mass timber), aproveitando o material para vencer grandes vãos com menor pegada de carbono. A experiência do torcedor também evolui do espetáculo para a vivência. A métrica histórica das linhas de visão, segundo John Rhodes da HOK, dá lugar a um "valor de entretenimento" holístico, que combina conforto, acústica, amenidades e atmosfera. A tecnologia entra como uma camada invisível para personalizar a jornada — com ingressos digitais e compra sem atrito —, mas sem competir com o foco principal: a experiência coletiva e humana do evento ao vivo.

No fim, o fio condutor entre as visões é que o valor de um estádio não será mais medido por sua capacidade ou receita em dia de jogo. A métrica do sucesso será sua contribuição social, cívica e econômica para a comunidade ao redor. Os projetos mais duradouros serão aqueles que as cidades "simplesmente não conseguem imaginar viver sem", como aponta a HKS. O desafio para os arquitetos não é mais apenas desenhar um objeto monumental, mas orquestrar um organismo vivo e pulsante dentro da cidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen