Um novo livro cataloga 33 projetos habitacionais na Europa que partem de uma premissa radicalmente diferente do padrão do mercado imobiliário: a moradia não é um produto fixo. Em “HOUSING — 33 Answers to the Housing Question”, os editores Jeanette Kunsmann e Laura Traub argumentam que a arquitetura precisa ir além da obsessão por metros quadrados e oferta, focando em como os espaços podem se adaptar às vidas fluidas de seus moradores. A compilação, que abrange desde moradias sociais e cooperativas até reformas e reuso adaptativo, funciona como um manifesto contra a padronização.
Segundo uma entrevista de Traub à publicação Designboom, a tese central é que o papel da casa se transformou. “O lar se tornou muito mais do que simplesmente um lugar onde vivemos”, afirma. “Tornou-se o centro de nossas vidas cotidianas e, muitas vezes, também de nossas vidas profissionais.” Com carreiras, arranjos familiares e necessidades de cuidado cada vez menos previsíveis, o modelo de apartamento ou casa como uma solução definitiva e estática se mostra insuficiente. A questão, portanto, não é apenas construir mais, mas construir diferente.
A casa como ecossistema
A pandemia apenas acelerou uma tendência já em curso: a absorção de múltiplas funções pelo espaço doméstico, que passou a abrigar simultaneamente escritório, escola, lazer e refúgio. Essa compressão de atividades expõe a fragilidade de projetos concebidos com uma visão rígida da vida familiar. Para os editores do livro, a solução não está em um novo modelo universal, mas na diversidade de respostas que considerem o contexto e as pessoas.
A leitura aqui é que a arquitetura habitacional precisa evoluir de um foco no objeto (a unidade) para um foco no sistema (o ambiente de vida). Um projeto em Zurique, do escritório Buchner Bründler, é citado como exemplo dessa mudança de mentalidade. Ele combina diferentes formas de morar com espaços compartilhados e uma forte conexão com o entorno, tratando a habitação como parte de um ecossistema residencial maior. O movimento sugere que o bem-estar não deriva apenas da qualidade do espaço privado, mas da riqueza das conexões que ele permite — com vizinhos, com o trabalho e com a cidade.
Construir menos, adaptar mais
Outro pilar fundamental da nova abordagem é a sustentabilidade, mas não apenas no sentido de materiais ou eficiência energética. A inovação mais potente, segundo Traub, pode estar em trabalhar com o que já existe. “Dada a quantidade de moradias e infraestrutura que já existe, a reforma, a conversão e a adaptação serão pelo menos tão importantes quanto a nova construção no futuro”, argumenta a editora. Essa visão desloca o valor da espetacularidade de um novo edifício para a inteligência em reaproveitar estruturas.
O caso do Felix-Platter-Spital em Basileia, na Suíça, ilustra a tese de forma contundente. Um antigo hospital foi transformado em cerca de 135 apartamentos, preservando grande parte da estrutura e do caráter do edifício original. O projeto não apenas evitou os custos ambientais e materiais de uma demolição e nova construção, mas também deu uma nova função a um marco urbano. A reflexão ecoa no contexto de cidades brasileiras, repletas de edifícios comerciais e institucionais subutilizados em áreas centrais que poderiam ser convertidos para uso residencial, atacando o déficit habitacional e revitalizando o tecido urbano simultaneamente.
No fim, o livro se recusa a dar uma resposta única para a “questão da moradia”. Em vez disso, apresenta um atlas de estratégias possíveis, defendendo que a arquitetura não deve prescrever como as pessoas devem viver, mas criar as condições para que diferentes formas de vida floresçam. A provocação final, como conclui Traub, é uma mudança na própria pergunta: o debate não deve ser sobre quantos metros quadrados podemos pagar, mas sobre que tipo de vida queremos que nossas casas tornem possível. É um lembrete de que, antes de ser um ativo financeiro, a moradia é o palco da vida cotidiana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





