A história financeira mais importante da próxima década não é a ascensão do crédito privado, mas o retorno de uma intensidade de capital que não se via há décadas. A tese, defendida por Jim Zelter, presidente da gigante de investimentos Apollo, é um diagnóstico direto sobre a nova fase da economia americana: a era do crescimento 'asset-light', dominada pelo software, chegou ao fim.
Em um artigo para a revista Fortune, Zelter argumenta que a nova onda de inovação — centrada em inteligência artificial, transição energética, infraestrutura e manufatura avançada — é fundamentalmente pesada em ativos físicos. O boom é tão intensivo em capital que nenhum mercado, seja de ações públicas, dívida pública ou crédito privado, consegue financiá-lo isoladamente. A era em que o software escalava mais rápido que o aço moldou os mercados de capitais das últimas décadas. Agora, o jogo mudou.
Do código aos chips
A pressão sobre os canais de financiamento tradicionais já é visível. Empresas ultra lucrativas como Meta e Oracle, que geram caixa massivo, foram ao mercado para captar dezenas de bilhões de dólares em dívida para financiar a construção de data centers e outras infraestruturas. A Amazon, sozinha, emitiu US$ 62 bilhões em um único ano. O volume de emissões de dívida corporativa de grau de investimento nos EUA, segundo o artigo, já se aproxima dos níveis de emissão líquida do Tesouro americano.
O ponto central é que o crescimento não virá apenas de código, mas de sistemas físicos: chips, redes de energia, logística e fábricas. A reconstrução da base industrial americana, após décadas de subinvestimento, exigirá trilhões de dólares. Isso força até mesmo a Alphabet, controladora do Google, a fazer sua primeira emissão de ações em duas décadas para financiar investimentos em IA, demonstrando que nem as empresas mais ricas do mundo conseguem bancar essa transição sozinhas.
Um quebra-cabeça de US$ 40 trilhões
Diante deste cenário, a velha dicotomia entre mercados públicos e privados ou dívida e equity se torna obsoleta. A questão, para Zelter, é como construir uma arquitetura de capital capaz de financiar uma economia mais pesada. A solução não é a substituição de um mercado por outro, mas a complementaridade. Bancos, seguradoras, mercados de títulos e o capital privado não são concorrentes, mas peças de um mesmo sistema.
Nessa nova configuração, o crédito privado — que a Apollo projeta como um mercado potencial de US$ 40 trilhões, majoritariamente de grau de investimento — encontra seu lugar. Seu papel não é substituir os mercados públicos, mas oferecer prazo, flexibilidade e estruturas customizadas para financiar ativos complexos e de longa duração. O alerta, no entanto, é claro: o crescimento desordenado pode levar à opacidade e à confusão entre engenharia financeira e produtividade real.
A renascença industrial americana, conclui o executivo, será financiada da mesma forma que está sendo construída: através da coordenação entre sistemas que antes eram tratados como separados. O desafio é construir essa ponte sem criar novas fragilidades sistêmicas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





