Onde antes crescia a grama, agora repousam ladrilhos de pedra com o selo presidencial em dourado. Guarda-sóis listrados, como os de um resort na Flórida, oferecem sombra a mesas e cadeiras. O nome oficial do espaço, segundo um porta-voz da Casa Branca, agora é “The Rose Garden Club” — o lugar “mais quente de Washington, ou talvez do mundo”. A transformação do Rose Garden, concluída em meados de 2025, é a mais recente e talvez a mais simbólica alteração arquitetônica promovida por Donald Trump em seu segundo mandato.

Esta não é uma simples reforma paisagística. A conversão de um dos espaços mais icônicos da presidência americana em um pátio que evoca o clube de Mar-a-Lago é uma declaração. A mudança, documentada pelo Business Insider em uma reportagem que acompanha a evolução do local, levanta questões sobre a apropriação de símbolos nacionais e a fronteira entre o público e o privado no exercício do poder. O que significa quando um jardim, um ecossistema vivo e mutável, é pavimentado e transformado em um clube?

O jardim como palco

Desde sua criação formal em 1913 pela primeira-dama Ellen Wilson, o Rose Garden funcionou como um espelho das administrações que o ocuparam. Antes um estábulo de cavalos, o espaço foi concebido para ser um contraponto natural à rigidez da Ala Oeste. Sua mais famosa encarnação veio em 1961, quando Jacqueline Kennedy, inspirada pelos jardins europeus, comissionou a designer Rachel “Bunny” Mellon para reimaginá-lo. Mellon introduziu uma grama central para eventos, bordas floridas e as macieiras silvestres que se tornaram sua marca. O jardim de Kennedy era um palco que mesclava poder e acessibilidade, onde presidentes anunciavam decisões históricas — como a nomeação de Ruth Bader Ginsburg por Bill Clinton — e recebiam dignitários.

Mesmo as mudanças posteriores mantiveram esse espírito. A reforma de 2020, conduzida por Melania Trump, gerou controvérsia ao remover as macieiras da era Kennedy (replantadas em outro lugar) e simplificar o esquema de cores. Críticos lamentaram a perda da vibração do design de Mellon, mas a estrutura fundamental de um jardim — um espaço verde e vivo, destinado a eventos e à contemplação — permaneceu intacta. Era uma alteração de tom, não de natureza. O que se seguiu, no entanto, foi uma ruptura fundamental com essa tradição de mais de um século.

O clube como declaração

A transformação de 2025, inspirada explicitamente no terraço do clube de Trump em Mar-a-Lago, substituiu a grama por pedra. A justificativa foi a funcionalidade para grandes eventos, mas a estética fala mais alto. O espaço foi rebatizado e transformado em um anexo de sua marca pessoal. A mudança vai além do piso. Ao longo da colunata, foi instalada a “Presidential Walk of Fame”, uma galeria de retratos e placas que resume o legado de ex-presidentes sob a ótica da atual administração. No lugar de uma foto de Joe Biden, por exemplo, há a imagem de uma caneta automática (autopen).

O jardim também se tornou um museu a céu aberto. Estátuas dos Pais Fundadores foram adicionadas, incluindo peças emprestadas pelo bilionário conservador Harlan Crow, cuja proximidade com figuras do judiciário já gerou intenso escrutínio. A curadoria do espaço, portanto, deixou de ser uma questão de botânica ou estética para se tornar um ato explicitamente político e ideológico. O “Rose Garden Club” não é mais um cenário neutro para o exercício do poder; ele é parte da mensagem, um ambiente que reflete a visão de seu ocupante sobre a nação, sua história e quem tem lugar nela.

O gesto de pavimentar um jardim carrega um peso simbólico inegável. Um jardim cresce, exige paciência, adapta-se às estações e está em constante, ainda que sutil, transformação. Uma pátio de pedra, por outro lado, é fixo, imutável e permanente. Ao gravar seu selo em ouro sobre a pedra, Trump não apenas reformou um espaço, mas buscou fixar sua própria imagem sobre um dos símbolos mais fluidos e duradouros da república americana. A questão que paira sobre os ladrilhos frios é se essa marca será permanente ou apenas mais uma camada na longa e complexa história do local.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider