Leopold Aschenbrenner, um ex-pesquisador da OpenAI de apenas 24 anos, se tornou o mais recente pôster da euforia em torno da inteligência artificial — e de seus riscos. Seu fundo de hedge, Situational Awareness, que acumulou US$ 45 bilhões em ativos e registrou ganhos de 1.000% em menos de dois anos, implodiu de forma espetacular. Uma forte oscilação negativa nas ações de IA ativou chamadas de margem de seus credores, forçando uma liquidação apressada da maior parte de sua carteira de ações para a Citadel, de Ken Griffin.

O episódio, detalhado em uma reportagem do Business Insider, é mais do que a história de um fundo que deu errado. Ele serve como um conto de advertência sobre os perigos da alavancagem e da busca por ganhos exponenciais em um setor volátil. A queda de Aschenbrenner se tornou um contraponto moderno e agudo à filosofia de investimento de Warren Buffett, baseada em paciência, disciplina e, acima de tudo, aversão a riscos que podem eliminar um investidor do jogo.

A miragem da alavancagem

A arquitetura do desastre estava na própria estrutura do Situational Awareness. O fundo operava com uma alavancagem de quatro para um, significando que a cada cinco dólares investidos, quatro eram emprestados. Essa estratégia explica a ascensão meteórica, pois os ganhos são multiplicados. Contudo, o mesmo vale para as perdas. Quando o mercado virou, a alavancagem se tornou um acelerador para a ruína, um cenário que Charlie Munger, falecido sócio de Buffett, resumiu ao dizer que usar alavancagem é uma das poucas maneiras pelas quais uma “pessoa inteligente pode ir à falência”.

Em contraste direto, Buffett sempre priorizou a sobrevivência da Berkshire Hathaway. Nos seus últimos anos como CEO, seu conglomerado acumulou mais de US$ 370 bilhões em caixa, uma decisão consciente de não pagar caro por ativos em um mercado superaquecido. Para Buffett, a “Regra nº 1: Nunca perca dinheiro” não é um clichê, mas o pilar de uma estratégia que visa construir riqueza de forma sustentável. Como disse Ross Gerber, CEO da Gerber Kawasaki, ao Business Insider, “o objetivo não é ficar rico o mais rápido possível. O objetivo é construir riqueza de uma forma que permita que você a mantenha”.

Temperamento sobre QI

Aschenbrenner, um valedictorian da Universidade Columbia, não falhou por falta de inteligência. A análise de especialistas como Michael Burry, o investidor de “A Grande Aposta”, sugere que o problema reside no temperamento. Burry o descreve como parte de uma geração de jovens investidores que “perseguem o momentum”, acreditando que não podem errar. A inteligência, por si só, não é garantia de sucesso nos mercados.

Para investidores de longo prazo, o controle emocional e a disciplina comportamental são mais importantes que o QI, uma vez que um nível mínimo de inteligência é atingido. A queda do Situational Awareness reforça a ideia de que gerenciar risco não é apenas encontrar a próxima grande oportunidade, mas, crucialmente, evitar os erros que podem levar à ruína. O próprio Buffett se via como o “chief risk officer” da Berkshire. Embora Aschenbrenner ainda seja jovem e, segundo relatos, mantenha uma participação relevante de US$ 5 bilhões na Anthropic, sua primeira grande crise serve de lição para o ecossistema.

A euforia em torno de tecnologias transformadoras como a IA sempre produzirá histórias de ganhos espetaculares e quedas igualmente dramáticas. A questão para o mercado não é se haverá novos Aschenbrenners, mas se as lições de prudência, personificadas por Buffett, serão lembradas antes da próxima chamada de margem. O mercado pode ter memória curta, mas o capital, não.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider