Um time de pesquisadores da Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos, pode ter solucionado um quebra-cabeça cósmico: por que alguns buracos negros parecem perder o apetite. Em encontros onde uma estrela é repetidamente “mordida” por um buraco negro supermassivo, as explosões de luz resultantes tendem a ficar cada vez mais fracas. A resposta, segundo um estudo publicado no The Astrophysical Journal, não está no buraco negro, mas na estrela — mais especificamente, na sua velocidade de rotação.
O fenômeno é conhecido como evento de perturbação de maré parcial e repetido (rpTDE, na sigla em inglês). Diferente da “espaguetificação” total, onde a estrela é completamente desfeita, aqui ela sobrevive à passagem inicial, mas perde parte de sua massa a cada órbita. A lógica sugeria que a cada “mordida” o flare de luz deveria ser intenso. Contudo, observações de quatro dos dez rpTDEs conhecidos mostravam um brilho decrescente. A nova tese, conforme reportado pelo portal Space.com, adiciona uma variável crucial que havia sido ignorada: o spin da própria estrela.
Uma nova rotação no banquete cósmico
Até agora, os modelos se concentravam na estrutura interna da estrela e na força gravitacional. Uma estrela de baixa massa, mais “fofa”, perderia material mais facilmente. Uma de alta massa, com um núcleo denso, resistiria melhor. No entanto, a teoria continha uma contradição: o torque do buraco negro deveria acelerar a rotação da estrela a cada passagem, encurtando sua órbita. Isso, por sua vez, deveria manter os flares de luz consistentemente brilhantes, e não o contrário.
A equipe de Syracuse, liderada por Ananya Bandopadhyay, propôs um cenário diferente. Se a estrela já estivesse girando em alta velocidade antes de seu primeiro encontro com o buraco negro, o torque adicional exercido por ele teria um efeito marginal. Sem essa aceleração significativa, a órbita não se encurta drasticamente. Com isso, o fator dominante passa a ser a quantidade de material disponível na superfície da estrela, que diminui a cada passagem, explicando naturalmente o enfraquecimento dos flares.
O fantasma de uma estrela binária
Isso levanta outra questão: por que uma estrela estaria girando tão rápido em primeiro lugar? A resposta pode estar em sua história. A maioria das estrelas não viaja sozinha, mas em sistemas binários. Segundo os pesquisadores, o cenário mais provável envolve um processo chamado captura de Hills: quando um par de estrelas se aproxima de um buraco negro supermassivo, a gravidade pode romper o sistema.
Nesse divórcio cósmico, uma das estrelas é arremessada para longe, enquanto a outra é capturada em uma órbita extremamente próxima e veloz ao redor do buraco negro. É justamente essa captura violenta que imprime na estrela sobrevivente a alta velocidade de rotação necessária para o fenômeno do brilho decrescente. Para Eric Coughlin, coautor do estudo, essa explicação unifica várias peculiaridades observadas nesses sistemas, representando um avanço teórico importante.
A descoberta tem implicações até para a nossa própria galáxia. O buraco negro no centro da Via Láctea, o Sagitário A*, é orbitado por estrelas de altíssima velocidade. Embora ele não esteja atualmente envolvido em um rpTDE, a nova pesquisa oferece um mecanismo plausível para explicar como essas estrelas foram parar lá, presas em sua dança veloz e perigosa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Space.com





