O Sonho Americano, ideal de que qualquer um pode prosperar com trabalho duro, está dando lugar a um novo fenômeno social: o “Grande Adiamento”. A tese é de Susan Wachter, professora de finanças e mercado imobiliário da Wharton School, em análise publicada pela revista Fortune.

Para Wachter, marcos tradicionais de sucesso — como comprar uma casa, casar e ter filhos — não estão sendo apenas adiados por escolha, mas por uma barreira econômica intransponível para muitos. O resultado é uma sociedade onde o sucesso depende menos do esforço e mais das circunstâncias do nascimento.

Do mérito à herança

Os dados que sustentam a análise são contundentes. Desde 2022, os custos de moradia para novos compradores mais que dobraram nos EUA, com taxas de hipoteca saltando de 3% para mais de 6% e preços de imóveis subindo 40%. O efeito é visível: quase um terço dos adultos com menos de 35 anos ainda mora com os pais, e 70% deles estão empregados, indicando que o problema não é a falta de trabalho, mas a inacessibilidade financeira. O adiamento se estende ao casamento e à maternidade, cujas idades médias também subiram significativamente nas últimas décadas.

Uma economia em 'K'

Wachter descreve o cenário como uma “economia em formato de K”. Jovens com acesso à riqueza dos pais continuam a progredir em direção à casa própria e outros marcos, enquanto seus pares igualmente capazes, mas sem esse suporte, enfrentam obstáculos muito maiores. "A oportunidade depende cada vez mais não apenas do esforço individual, mas também dos recursos familiares", escreve a professora. Embora existam novas políticas para tentar ampliar o acesso à moradia, a questão central permanece: a política pública conseguirá evoluir rápido o suficiente para que o mérito volte a ser o motor da ascensão social?

O conceito do "Grande Adiamento" ressoa para além das fronteiras americanas. Ele lança um olhar crítico sobre a mobilidade social em economias ocidentais onde o acesso a crédito e o custo de vida também redesenham as expectativas de uma geração inteira, incluindo o Brasil. A discussão não é sobre o fim do sonho, mas sobre quem ainda tem o direito de sonhar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune