Felipe Nascimento estava com a carreira encaminhada em Manhattan, com passagens por Ambev, Grupo 3 Corações e XP no currículo. Mas uma conversa com o avô, Nelson de Castro, fundador da Cory Alimentos, o fez cancelar tudo e voltar para Ribeirão Preto. Ele não retornou para assumir uma cadeira, mas para se tornar a "sombra" do fundador.

A trajetória de Nascimento é um estudo de caso sobre um dos maiores dilemas do capitalismo brasileiro: a sucessão em empresas familiares. Em um país onde o sobrenome ainda abre muitas portas, sua filosofia é um contraponto. “Eu não acredito em herdeiros que se autodenominam sucessores. Isso me irrita profundamente”, afirmou em entrevista ao InfoMoney. A sucessão, para ele, é uma conquista.

A sombra do fundador

A decisão de Felipe não foi a de um herdeiro ansioso pelo trono, mas a de um profissional que viu uma oportunidade única de aprendizado. Ao invés de reivindicar o cargo, ele pediu para acompanhar o avô, que continua como CEO e acionista único da companhia que fatura cerca de R$ 300 milhões anuais. A palavra final ainda é de Nelson.

Essa postura, de humildade e foco no aprendizado, é o que legitima seu papel como diretor executivo. Ele não chegou como "o neto do dono", mas como um executivo com bagagem externa que se propôs a entender a operação a partir da perspectiva de quem a criou. É uma tentativa de unir a governança profissional com a sabedoria do fundador.

O legado como plataforma

O desafio da Cory, dona de marcas icônicas como a Bala Chita e Icekiss, é o de tantas outras empresas tradicionais: como se manter relevante? A visão de Felipe é clara: o legado não é uma âncora, mas uma plataforma. “O que trouxe a gente até aqui não nos garante o futuro... Mas as marcas nos dão uma vantagem absurda”, disse ele.

Na prática, isso se traduz na exploração de novas categorias, como produtos funcionais e sem açúcar, aproveitando a força de um nome construído ao longo de 58 anos. É a busca pelo equilíbrio delicado: inovar sem descaracterizar, modernizar sem perder a alma que permitiu à empresa produzir 120 toneladas de balas por dia e exportar para 45 países.

A jornada de Felipe na Cory Alimentos ecoa um debate central para a economia brasileira, repleta de negócios familiares em transição. Seu caminho sugere que o futuro não reside em uma ruptura geracional, mas em uma síntese onde o mérito valida a herança. A sucessão, nesse modelo, não é um evento, mas um processo contínuo de conquista de confiança.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney