Istambul, 2014. Em meio ao fluxo de milhões de vidas deslocadas pelas convulsões do Oriente Médio, dois jovens afegãos se encontram. Delbar, criado nos subúrbios de Washington D.C. e educado no coração do império, chega à Turquia após ser expulso de casa por sua mãe ao se assumir gay. Mansur, que fugiu a pé do Afeganistão para o Irã com a família e viveu na pobreza, é contrabandeado para o mesmo destino depois que sua sexualidade também vem à tona. O ponto de encontro é uma organização não governamental que oferece refeições a refugiados. Suas trajetórias, distintas em classe e experiência, são unidas por uma mesma força motriz: as ondas de choque da Guerra ao Terror, iniciada a milhares de quilômetros de distância, treze anos antes.

Este é o cenário de 'No God But Us', romance de estreia de Bobuq Sayed. Conforme detalhado em uma análise do site literário Lit Hub, a obra vai além do drama pessoal para oferecer um dos mais incisivos comentários culturais sobre o legado do pós-11 de Setembro. O livro não é apenas sobre a experiência de refugiados, mas sobre como a intervenção ocidental não só destrói lares e economias, mas também redefine e estigmatiza identidades. A tese aqui é que a literatura, com sua capacidade de mergulhar na subjetividade, oferece um balanço de perdas e danos que a análise geopolítica tradicional raramente consegue capturar.

A guerra que criou uma identidade

A Guerra ao Terror, formalizada em 2001, deixou um rastro de destruição que os números mal conseguem traduzir. O projeto Costs of War da Brown University estima 4,5 milhões de mortos (diretos e indiretos) e 37 milhões de deslocados em países como Afeganistão, Iraque e Síria. Mas o romance de Sayed explora uma consequência mais sutil e igualmente violenta: a fabricação de uma identidade pan-regional. O livro dialoga com a teoria do acadêmico Jose Esteban Muñoz sobre o "sense of brown" (um senso de ser 'marrom'), que descreve como populações de diversas origens são achatadas em uma única categoria racializada e marginalizada pela migração e pela política externa.

No universo do livro, essa fusão é constante. Personagens afegãos são confundidos com árabes, e a complexidade cultural de uma vasta região é apagada sob o rótulo monolítico de 'muçulmano' ou 'terrorista'. A obra de Sayed, segundo a crítica, é 'despudoradamente marrom', recusando-se a traduzir termos em farsi ou turco e forçando o leitor a habitar um espaço que não foi feito para seu conforto. É um ato de resistência literária contra a simplificação que caracterizou a cobertura midiática e o discurso político ocidental por duas décadas, que agruparam Afeganistão e Egito, Indonésia e Paquistão, sob um mesmo olhar de suspeita.

O espelho das ONGs e a miopia do Ocidente

Um dos alvos mais afiados da sátira de Sayed são as ONGs ocidentais e seu 'complexo de salvador branco'. O encontro de Delbar e Mansur ocorre na 'PeaceMeals', uma organização fictícia liderada por um alemão 'com cara de Anderson Cooper' que discursa sobre a generosidade de fundos filantrópicos enquanto os participantes são forçados a assinar autorizações de imagem para ganhar uma refeição. A cena é uma crítica mordaz à indústria da ajuda humanitária, que muitas vezes parece mais focada em validar a si mesma do que em resolver os problemas que os próprios países de origem dessas ONGs ajudaram a criar.

A dinâmica entre os dois protagonistas aprofunda essa crítica. Delbar, o americano, internalizou a lógica do império. Ao dar um ultimato à sua mãe sobre sua sexualidade, ele usa a mesma retórica de George W. Bush: "Ou ela estava com ele ou contra ele". Mansur, cuja vida foi diretamente impactada pela violência e pela perda, fica chocado com a ingenuidade e o absolutismo de Delbar. Para ele, a obsessão do colega com rótulos de identidade e vídeos no YouTube parece fútil. A leitura que emerge é que Delbar, apesar de sua origem, 'se apegava a suas grandes ideias porque nada jamais lhe fora tirado'.

'No God But Us' força uma confrontação desconfortável. A análise do Lit Hub sugere que o livro não recebe a mesma atenção de outros romances queer aclamados, como 'Me Chame Pelo Seu Nome', precisamente por sua crítica contundente ao império americano. A obra recusa-se a ser um item de consumo multicultural para uma audiência liberal. Em vez disso, funciona como um espelho, refletindo a violência, a hipocrisia e as consequências duradouras de decisões tomadas em gabinetes com ar-condicionado em Washington e capitais europeias. A pergunta que fica não é sobre o destino dos personagens, mas sobre a capacidade do Ocidente de, um dia, encarar de fato o mundo que ajudou a criar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub