A euforia com a inteligência artificial, que dominou as conversas sobre risco e oportunidade nos mercados durante meses, está dando lugar a uma preocupação mais antiga e fundamental: o custo do dinheiro. Segundo a mais recente pesquisa do Bank of America (BofA) com gestores de fundos globais, a possibilidade de uma alta desordenada nos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, os Treasuries, é agora vista como o maior risco para a estabilidade dos mercados.
A mudança de guarda é notável. A preocupação com uma “bolha de IA”, que em agosto era citada por 32% dos gestores como o principal temor, caiu para 28% em setembro. No mesmo período, o medo de uma disparada nos juros dos Treasuries saltou de 27% para 33%, assumindo a liderança. A tese aqui é clara: a gravidade macroeconômica está se reafirmando sobre a narrativa setorial, por mais poderosa que ela seja.
O capital fica mais caro
Essa inversão de prioridades não é apenas teórica; ela já se reflete na alocação de portfólio. A pesquisa do BofA, realizada com 190 gestores que administram US$ 512 bilhões, aponta que a alocação líquida em ações caiu de 56% para 49% no último mês. Simultaneamente, as posições em caixa subiram de 3,5% para 3,9%. Embora ainda em território considerado de apetite a risco, o movimento indica uma busca por segurança.
A aposta contra os títulos do governo americano tornou-se a segunda operação mais “popular” do mercado, atrás apenas das posições compradas em ações de semicondutores — um reflexo direto da aposta em IA. Esse posicionamento revela uma convicção de que os juros permanecerão altos, tornando a dívida soberana dos EUA um ativo de risco no curto prazo. A exposição líquida aos Treasuries está 48% abaixo do peso ideal, a menor desde maio de 2022.
O fator político no cálculo
Adicionando uma camada de complexidade, o cenário político americano também entra na equação de risco. A pesquisa indica que a expectativa de uma vitória do partido Democrata nas eleições de meio de mandato aumentou, e 45% dos entrevistados acreditam que tal resultado levaria a um aumento nos rendimentos dos Treasuries e a uma consequente queda no mercado de ações.
O quadro pintado pelos gestores é o de um mercado em reavaliação. A narrativa de que a IA poderia sustentar o crescimento de forma isolada perde força diante de um ambiente onde o capital não é mais gratuito. Curiosamente, apenas 14% dos gestores esperam cortes nos investimentos em infraestrutura de IA pelas gigantes de tecnologia, sugerindo que a aposta estrutural na tecnologia permanece, mas o caminho tático para os investidores tornou-se mais incerto e dependente dos velhos fundamentos da economia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





