A imagem que define Franco Baresi talvez seja a do verão de 1994, no estádio Rose Bowl, em Pasadena. Vinte e cinco dias após romper o menisco do joelho, o capitão italiano voltou em tempo recorde para a final da Copa do Mundo contra o Brasil. Por 120 minutos, ele entregou uma aula de defesa, anulando o ataque de Romário e Bebeto. Ao fim, exausto e com cãibras, errou o primeiro pênalti da disputa que daria o título ao Brasil. Ali estava a síntese de Baresi: a excelência técnica beirando a perfeição, a resiliência sobre-humana e a vulnerabilidade trágica do herói.
Sua morte, aos 66 anos, encerra a biografia, mas solidifica o mito. Baresi não foi apenas um zagueiro; foi a mente por trás de uma das maiores revoluções táticas do futebol. No Milan de Arrigo Sacchi, ele era o líbero que comandava a linha de impedimento com a precisão de um maestro, transformando um mecanismo defensivo em uma arma de ataque. Sua leitura de jogo e capacidade de antecipação eram tão agudas que a força física se tornava secundária. Ele não precisava correr; ele já estava lá.
O último fiel
Mais do que a técnica, o que cimenta o legado de Baresi é a lealdade. Em um esporte cada vez mais transitório e mercantil, sua carreira é uma anomalia. Foram 719 jogos, de 1977 a 1997, vestindo uma única camisa: a vermelha e preta do Milan. Ele esteve com o clube na glória das três Copas dos Campeões da Europa e na humilhação de dois rebaixamentos para a segunda divisão italiana. Ele não era um funcionário do Milan; ele era o Milan.
Essa fidelidade foi reconhecida com a maior das honrarias: a aposentadoria de sua camisa, a número 6. Nenhum outro jogador do clube jamais a vestiu. A decisão transformou um pedaço de tecido em um símbolo perene de pertencimento e liderança silenciosa. Baresi falava pouco, mas sua presença em campo era um discurso.
Hoje, o futebol busca ídolos em meio a narrativas de transferências milionárias e marcas pessoais. A trajetória de Baresi, encerrada nesta sexta-feira, serve como um lembrete de um tempo em que a identidade de um jogador podia se fundir completamente à de um clube, criando uma história maior que os títulos ou os gols. Uma história de permanência.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





